RUTH AMAVA NOEMI COMO ADÃO AMAVA EVA!



A mesma palavra hebraica que é usada em Gênesis 2:24 para descrever como Adão se sentiu em relação a Eva (o sentimento que os cônjuges devem ter um pelo outro) é usada em Ruth 1:14 para descrever como Ruth se sentia em relação a Noemi. Seus sentimentos são comemorados e não condenados.
Ao longo da história cristã o voto de Ruth a Noemi foi usado para ilustrar a natureza do convênio de casamento. Estas palavras são frequentemente lidas em cerimônias de casamentos cristãos e usadas em sermões para ilustrar o amor ideal que os cônjuges devem ter um pelo outro. O fato de que estas palavras tenham sido originalmente faladas de uma mulher para outra nos diz muito sobre como Deus se sente a respeito de relacionamentos do mesmo sexo.


DISCUSSÃO
Em toda a Bíblia há apenas dois livros com nomes de mulheres. Um deles é Ester, que conta a história de uma mulher que se torna rainha da Pérsia e salva seu povo da destruição "apresentando-se" como judia para seu marido, o rei. A outra é Ruth, que conta a história de duas mulheres que se amam e se apoiam em tempos difíceis. Ambos os livros contêm mensagens poderosas para as pessoas LGBT, mas, é a história de Ruth que aborda a questão que levantamos no começo: Pode duas pessoas do mesmo sexo viverem uma relação amorosa com a bênção de Deus?
No início do livro de Ruth somos apresentados a Noemi e seu marido Elimeleque. Eles são de Belém, onde uma terrível fome acomete no local. Sem condições de encontrar comida, eles e seus dois filhos passam para Moabe, uma terra estrangeira, onde acreditam serem capaz de sobreviver. Infelizmente, Elimeleque morre pouco tempo depois de chegar a Moabe. Vários anos se passam e os filhos de Noemi se casam com Ruth e Orfa, duas mulheres de países circundantes. Mas antes que possam ter filhos, seus maridos (filhos de Noemi) também morrem. Ruth e Orfa são deixadas sozinhas, sem maridos e nenhum filho.
Para compreender o impacto total do acontecido temos que nos colocar na mentalidade da época. Quando esta história foi escrita, as mulheres tinham apenas dois lugares aceitáveis na sociedade: Podiam ser uma filha na casa de seus pais ou uma mulher na casa de seu marido. Uma mulher sem um homem não tinha legitimidade social. Há várias histórias do Antigo Testamento sobre viúvas que quase morreram de fome por não terem um homem para cuidar delas. O constante mandamento bíblico para "cuidar dos órfãos e viúvas" decorre do entendimento de que as viúvas estavam entre as pessoas mais vulneráveis da sociedade.
Este contexto faz com que a próxima cena seja quase inacreditável. Noemi, ainda de luto e reconhecedora de seu destino como viúva, decide voltar para Belém, onde mora a família de seu pai, e onde espera encontrar comida. Ela aconselha as "filhas-de-lei" fazerem o mesmo, voltar para suas famílias. Ela sabe que não pode oferecer apoio, como mulher, e teme ser um fardo para elas. Orfa, de forma sensata, volta para casa.
Mas Ruth não pode suportar fazê-lo. Seus sentimentos são profundos demais. A palavra hebraica usada em Ruth 1:14 para descrever esses sentimentos é bastante reveladora. O texto diz: "Ruth se apegou a [Noemi]." A palavra hebraica para "apegar" é "dabag". Esta é precisamente a mesma palavra hebraica usada em Gênesis 2:24 para descrever como Adão se sentiu em relação a Eva.
Você provavelmente se lembra da história de Adão e Eva, registrada em Gênesis 2. Após Deus criar Adão, ele se sente terrivelmente solitário. Nenhum dos animais que Deus criou, magníficos como eram, pode atender a profunda necessidade de Adão por uma companhia. Então Deus colocou Adão em um sono profundo, tirou uma costela de seu lado, e criou Eva. Quando Eva é apresentada a Adão, ele exclama: "Esta é, realmente, ossos dos meus ossos e carne de minha carne...". Finalmente Adão tinha uma companhia humana. O próximo versículo do texto, chama para uma importante conclusão teológica a partir da experiência de Adão. Ele diz que, por esta razão (ou seja, a necessidade de companheirismo), um homem deve deixar seu pai e sua mãe quando cresce e se "agarrar" (dabaq) com sua esposa. (Gênesis 2:24). E, é nítido, para a grande maioria dos seres humanos, que a vontade de Deus para eles é que um homem e uma mulher deixem a casa de seus pais e formem uma relação com outro, tão próxima, tão íntima que pode ser descrita como "agarrados" um ao outro.
Mas o que dizer das pessoas que não são heterossexuais? É possível, para elas, com a bênção de Deus, formar um tipo de relacionamento íntimo com alguém do mesmo sexo?
O Espírito Santo responde definitivamente a essa questão em Ruth 1:14. As Escrituras dizem, sem desculpas, vergonha ou qualificação que Ruth sentiu o mesmo carinho que os cônjuges devem sentir um pelo o outro em relação a Noemi. Longe de serem condenados, os sentimentos de Ruth são comemorados.
Na verdade, de modo a eliminar qualquer dúvida sobre o que Ruth sentia em relação a Noemi, as Escrituras passam a registrar os detalhes do voto que ela faz. Aqui estão as palavras:
"Não me pressione para deixá-la ou virar as costas para ti! Onde você for, irei eu, onde pousares, pousarei eu; o teu povo será o meu povo; e o vosso Deus, o meu Deus. Onde quer que morras, ali morrerei eu e serei sepultada. Que o Senhor faça assim entre mim e ti, e muito mais, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti." (Ruth 1:16-17).
Quando Ruth falou essas assombrosas palavras, "Onde quer que morras, ali morrerei eu e serei sepultada" não falava de um teórico futuro distante. Ela dava voz a uma possibilidade muito real de que a decisão de colocar sua vida nas mãos de outra mulher poderia resultar em morte. A coisa sensata a se fazer era ter permitido Noemi voltar para sua família e voltar para a dela. Mas Ruth não fez a coisa sensata. Ela jogou o cuidado para o vento e vai contra cada instinto de sobrevivência. Apenas uma palavra poderia explicar suas ações - o amor.
Após esse discurso falado no primeiro capítulo, a história vai em direção da vida de Ruth e Noemi juntas. O foco é sobre a qualidade de seu relacionamento. O narrador bíblico narra como Ruth cuidou de Noemi, tendo como único trabalho disponível para uma mulher sem marido, ser colhedora. Quando o autor fala do eventual casamento de Ruth com um homem mais velho, o casamento é retratado como um pacto de conveniência, planejado para que Ruth e Noemi pudessem sobreviver as duras condições de viuvez. Nenhuma menção é feita ao amor de Ruth por seu marido. E, quando finalmente Ruth carrega um filho de seu casamento, o texto enfoca a grande reação de Noemi à notícia, e não a do pai. Na verdade, as mulheres da aldeia (e o autor) ignoram completamente o pai, dizendo: "Nasceu um filho para Noemi" (Ruth 4:17). Elas lembram "pois tua nora, que te ama... te é melhor que sete filhos" (Ruth 4:15). Todo mundo parece entender que, para Ruth e Noemi, a relação que compartilham é mais importante.
Isso é o que a Bíblia diz: O sentimento que Ruth tinha por Noemi era como o sentimento que Adão tinha por Eva, ela desistiu de tudo para poder estar com sua amada; colocou sua própria vida em risco para por ela, e, mesmo depois de se casar com um homem, seu relacionamento mais importante continua a ser o que compartilhava com Noemi. Essas ações e emoções dificulta, tornando quase impossível se explicar essa relação como mera amizade. Se deixarmos de lado nossos preconceitos do que seria possível na Bíblia, veremos que o livro de Ruth conta a história de duas mulheres apaixonadas.
Instintivamente, e talvez inconscientemente, os cristãos ao longo do século reconheceram a validade dessa interpretação. O voto que Ruth fez a Noemi (supra citado) foi e é lido em casamentos cristãos por séculos, pôr captar a essência do amor que deve existir entre os cônjuges. Parece tão pouco inconsciente usar tais palavras para definir e celebrar o amor esponsal, e, logo depois insistir que quem falou as palavras originalmente não amava como cônjuge.
Na primeira edição de seu livro Nossa Tribo a Rev. lésbica Nancy Wilson, falou de um tempo em que apresentou uma peça que incluía a história de Ruth e Noemi:
"Depois da primeira ou segunda apresentação, um jovem casal heterossexual veio timidamente até mim dizendo que adoraram a peça, especialmente a parte sobre Ruth e Noemi que eu tinha explicado em diálogo com o público logo após. Eles gostaram tanto da passagem de Ruth que pediram a minha permissão para usá-la em sua cerimônia de casamento! Eu estava tão emocionada que quase começo a rir, mas, muito séria dei a permissão solicitando que de alguma forma eles indicassem que tais palavras foram originalmente faladas de uma mulher para outra. Eles alegremente concordaram com meus termos e me agradeceram. Eu (agora) tenho fantasias de interromper inocentes casamentos heterossexuais com um 'STOP em nome de Ruth e Noemi...! Parem de roubar nossas histórias e depois fazer delas relações ilegais ou caracterizá-las como imorais!'".
Isso é precisamente o que muitos têm feito nas igrejas, condenado veementemente todas as mulheres que se atrevem a compartilhar o mesmo voto feito por Ruth a Noemi. No entanto, como pode ser errado duas mulheres fazerem tais votos se temos o exemplo bíblico de Ruth e Noemi fazendo exatamente isso?
Alguns podem objetar dizendo: "Mas a Bíblia não vem a público dizer que Ruth e Noemi eram amantes. Apenas que é bom para as mulheres viverem juntas e cuidarem umas das outras... nada mais que isso!". Essas pessoas parecem pensar que a principal diferença entre a relação lésbica moderna (que tanto condenam) e a descrição bíblica de Ruth e Noemi (que aceitam) é que a Bíblia não menciona explicitamente que elas eram sexualmente intimistas. Mas desafiamos essa noção. Tendo ou não Ruth e Noemi um relacionamento íntimo e físico, acreditamos que muitos cristãos se opõe a mera ideia de duas mulheres terem vivido um relacionamento amoroso.
Imagine um televangelista conservador aconselhando duas mulheres de sua congregação. As mulheres falarem: "Queremos viver juntas e comprometermos nosso amor uma pela outra aos olhos de Deus e dessa congregação. Queremos que nossa família da igreja celebre nosso relacionamento. E, como palavras de nosso voto, usaremos Ruth 1:16-17".
Ele dirá: "Não posso permitir isso. Nossa igreja é contra o homossexualismo".
As mulheres dizem: "OK, tudo bem, nós permaneceremos celibatárias. Pense nisso como um casamento espiritual".
Você acha que o televangelista diria: "Tudo bem, nesse caso, vamos marcar a data!"
Longe disso! A própria noção de duas mulheres fazerem tais votos uma a outra é socialmente repugnante para ele. Seus preconceitos dizem-lhe que esse tipo de amor é "nojento". Mas a Bíblia está em oposição direta ao preconceito do televangelista.
A Bíblia é nítida. Encontramos aqui duas mulheres que fizerem votos de viverem juntas por toda a vida, se amavam profundamente, adotando-se como sua própria família, dependendo uma da outra para seu próprio sustento como fazem os casais de lésbicas hoje. Em vez de condenar essas relações, a Bíblia celebra-a, dando-lhes um livro próprio nas Escrituras Sagradas.

Fonte: www.wouldjesusdiscriminate.org