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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

TEOLOGIA TRANS (PARTE 1)

 
"Precisamos de um Deus-trans... que transgrida todas as nossas ideias sobre quem é, o que é e o que possa ser Deus, que nos transporte para novas possibilidades de como Deus pode encarnar a multiplicidade das formas das realizações humanas, que transfigure nossas imagens mentais de limitações, que transforme as nossas ideias sobre nossos companheiros seres humanos e sobre nós, que transcenda tudo o que sabemos ou pensamos saber sobre Deus e sobre a humanidade como IMAGO DEI". BK Hipsher

O que os cristãos devem saber sobre as pessoas travestis e transexuais? Que tipo de apoio encontramos nas várias posições da Bíblia? Como as histórias bíblicas podem laçar luz sobre a vida das pessoas trans? Talvez você, que é um/uma ministro/ministra de congregação, que tenha um amigo ou amiga trans, que tenha um filho ou filha trans queira conversar sobre o assunto. Ou talvez você seja uma pessoa trans e quer saber como o cristianismo pode lhe dar apoio. Cremos que as denominações cristãs devam apoiar as transições das pessoas trans, se esse for seu desejo. Mostrarei os principais argumentos cristãos favoráveis a aceitação das pessoas trans e, discutirei também a posição assumida por algumas denominações atualmente.

Minha experiência mostra que as questões teológicas em torno da identidade trans sejam realmente bastante diferentes das reflexões cristãs sobre lésbicas, gays e bissexuais, onde existe uma gama de discussão em diversos lugares. Vemos muitos pastores e pastoras discutirem sobre as questões bíblicas referentes as pessoas LGB, mas quase nenhum/nenhuma está familiarizado/familiarizada com as discussões e passagens bíblicas que dizem respeito a população T. Estamos focando nas pessoas trans, mas existem textos relevantes sobre pessoas não-binárias ou pessoas de gêneros fluidos. Parto do pressuposto que você já esteja familiarizado com os conceitos básicos do que seja pessoas travestis e transexuais, caso não, procure estudar tais conceitos.
ARGUMENTOS A FAVOR DAS IDENTIDADES TRANS
Argumentos do amor cristão em geral, ou inclusão, ou a valorização da diversidade, etc.

Provavelmente os argumentos mais comuns para o apoio cristão às pessoas trans seja o de enxergá-las como exemplo de um princípio mais amplo sobre o amor cristão, ou inclusão, ou uma valorização geral da diversidade. Muitas teologias pregam sobre o valor da criação de Deus. É comum salientar que Jesus intencionalmente interagiu e defendeu uma variedade de tipos de párias sociais: cobradores de impostos, prostitutas, samaritanos, pobres pescadores, leprosos, etc. Da mesma forma pode-se apontar uma injunção bíblica especial para ajudar pessoas que precisavam de ajuda, e as pessoas trans parecem precisar de ajuda em uma variedade de medidas. As Igrejas da Comunidade Metropolitana celebram as identidades trans e colocam tal experiência como parte do confiar na sabedoria de Deus "criatividade diversificada de Deus".
"Nós achamos que reivindicando nossa plena sexualidade nos tornamos um alegre ato da obediência e confiança na sabedoria de nosso Criador. Quando confiamos a expressão de nossa identidade sexual em um relacionamento amoroso e justo, nossa dependência e compromisso com a vontade de Deus é revelada e aprofundada. Se o fizermos, obrigamo-nos a uma busca sincera e continua em um caminho para Deus, nesta área mais íntima e indefesa de nossas vidas. As variedades resultantes de relacionamentos e identidade de gênero, em sua gama complexa, responsável, rica e surpreendente, são um lembrete permanente, que o plano de Deus está além da compreensão humana".
As igrejas que praticam uma comunhão aberta (incluindo muitas denominações protestantes), muitas vezes veem isso como uma extensão de um dever da igreja de ministrar a todas pessoas que estão dispostas a ser ministradas, mesmo os pecadores e, mesmo desaprovando as pessoas travestis e transexuais, consideram um dever cristão apoiá-las de várias maneiras. Existem muitas maneiras de obter argumentos para se trabalhar desta forma, e, até mesmo as tradições que se opõem as identidades trans em alguns aspectos, precisam dos outros para apoiá-los, a fim de serem coerentes com seu próprio entendimento da mensagem de Cristo.
Os "eunucos", foram parte integrante da sociedade nos tempos bíblicos, e não foram rejeitados nem pelos judeus, nem pelos cristãos
Por que devemos esperar que a Bíblia fale sobre as pessoas travestis e transexuais em todo seu contexto? Todos os dois termos são recentes, certo? Cirurgias de redesignação sexual e terapia de reposição hormonal moderna foram desenvolvidas por volta do século 20. Ser travesti ou transexual é uma coisa bastante recente, certo? Não. Nem um pouco. Nosso pensamento atual sobre travestis e transexuais e nossas técnicas médicas para auxiliar a transição são ambas muito recentes, mas as pessoas trans deram o melhor de si para viverem sua vida, em praticamente todas as culturas, presente em toda história registrada. Olhe isto deste modo, a palavra "homossexual", foi cunhada em 1896, nossa forma atual de pensar sobre homossexualidade é bastante recente, mas existiram pessoas que hoje teriam sido chamadas de homossexuais em cada cultura há milênios, porém, elas foram categorizadas de outras maneiras anteriormente. Isso é tão verdadeiro para as identidades de gênero, como é para as sexualidades homo e bi.

Ambas são registradas na Bíblia, mas, com o nome de "saris" (pl. Sarissim), em hebraico e aramaico, e "eunouchos", em grego, geralmente traduzida para "eunuco" em português. Mas "eunuco" no hebraico, aramaico, grego e na cultura romana não tinha exatamente o mesmo significado que tem no português. Por exemplo, não implicava ou exigia que a pessoa fosse castrada. Pessoas castradas são um dos vários tipos de eunucos, no latim, grego, hebraico e aramaico, uma pessoa pode ser castrada sem ser saris, ou ser uma saris sem ser castrada. Deuteronômio 23:1 usa termos diferentes para falar sobre as pessoas castradas e as com testículos esmagados. Eunouchos e saris são ambas grandes categorias projetadas para incluir lotes de diferentes tipos de pessoas que não são homens ou ex-homens, nem exatamente femininos também. Alguém nascido intersex, ou nascido do sexo masculino, mas que vivia publicamente fora das normas de masculinidade, ou alguém que queria concentrar sua vida a serviço de um rei em vez de criar uma família, ou mesmo alguém que fosse castrado, ou ainda alguém feito para viver uma vida de um terceiro sexo fazia parte desse código de eunucos do mundo antigo. Um homem que se encontrava infértil ou impotente, ou apenas impotente para com as mulheres, podia ser identificado como eunuco pelos outros, e tanto podiam concordar que eram, como podiam negar, e afirmar que eram do sexo masculino, apesar disso. Eunucos frequentemente usavam roupas do sexo feminino, ou, nas versões femininas, roupas masculinas. Eunucos eram casados. Sarissim, em particular, era associado fortemente ao serviço oficial dos palácios, e não tinham filhos. Na cultura greco-romana um homem que preferia dormir com homens, mas que se encontrava disposto e capaz a se casar e dormir com mulheres e ter filhos, era considerado dentro dos limites da normalidade, um homem que não estava disposto ou mesmo fosse incapaz de se casar com mulheres ou ser pai, era considerado um eunuco, e não um homem. É possível que os sarissim fossem trabalhados desta forma também. Uma série de estudiosos acreditam que muitas pessoas que hoje são consideradas gay, teriam sido codificadas como eunucos no antigo Israel. Romanos e Gregos descreviam eunucos como "um terceiro gênero do ser humano", como "terceiro sexo", e como "gênero do meio".

Saris e eunouchos também foram usados para traduzir identidades desconhecidas de gênero em outras culturas próximas, dos quais haviam muitos. Potifar, egípcio, (proprietário de José em Gênesis 39), era um e, provavelmente um "Sequet" (terceiro gênero, além de masculino e feminino no antigo entendimento egípcio). Mas, isso é traduzido como saris em hebraico. A erudição moderna ainda está lutando para entender o sentido de uma gama de identidades não-padrão de gênero entre os sumérios, acádios, assírios e babilônicos como "aqueles que estão diante do rei", "a terceira categoria de pessoas", ur-sal, ou Kur-ga-ra, sag-ur-sag, assinu, keleb, kulu'u, sinnisanu, entre outras. Parece que essas pessoas faziam distinção entre os ricos dos palácios e os servos de gênero queer, prostitutos sagrados, gênero fluido, homens que viviam com mulheres, homens-mulheres, homossexuais efeminados, e muitos outros. O que está nítido é que haviam muitas possibilidades de identidades de gênero não-padrão na Mesopotâmia, mas o único termo em hebraico que traduz tudo isso é saris (e ay'loint, do aramaico pode preservar algumas das distinções assírias. E temos m'hay-min, gwar-Ni-SHA-ya entre outras, para além da forma de saris). A Frígia (Phyrigians) teve os Galli, que continuou e se espalhou após sua queda, alguns dos entendimentos de gênero Galli se espalharam e provavelmente influenciaram os entendimentos mais Helênicos de Hermafrodita (Hermaphroditus), andróginos e eunucos.

Tudo bem, mas o ponto é que sarissim e eunucos são frequentemente mencionados na Bíblia, e são aceitos, de modo geral, sem comentário, hostilidades ou oposição. A Bíblia não contém condenações para eunucos, ou apelos para não deixar suas crianças virarem eunucos quando crescerem, ou dar a entender que ser eunuco era um castigo de Deus ou uma rebelião contra o plano dele. Muitos eunucos podem ter sido excluídos da casa do Senhor, mas em uma passagem mais adiante, em Isaías 56:4-5 diz: "Porque assim diz o Senhor a respeito dos eunucos, que guardam meus sábados, que escolhem coisas que me agradam e abraçam minha aliança: Darei na minha casa, dentro de meus muros, um lugar e um nome, melhor do que filhos e filhas; darei um nome eterno que nunca será apagado". Talvez Isaías tente rever e atualizar Deuteronômio, mas também é possível que os eunucos tenham um papel liminar entre os antigos hebreus, onde eram excluídos da casa de Deus, mas ainda considerados de alguma forma valiosos como membros da comunidade. A Bíblia tem muitos exemplos de eunucos que são retratados de forma basicamente favoráveis, Potifer, Aspenaz, Ebede-Meleque, um funcionário etíope sem nome que interage com Filipe, etc.

É importante ressaltar que não há registro nem de Jesus, nem dos discípulos tentando curar um eunuco. Por que não? Leprosos também eram excluídos, e um dos principais objetivos de Jesus era o de cura, incluindo os leprosos. (Marcos 1:40-45; Mateus 8:2-4; Lucas 5:12-16). Então, por que Jesus não curou eunucos castrados também, e os restaurou para sua casa? Bem, uma razão é uma citação que veremos mais à frente, outra razão possível é que simplesmente Jesus não via eunucos como tendo necessidades de cura, não tem nada de errado com eles, não são impuros, especialmente se a pessoa escolheu esse caminho. Os eunucos não vinham para cima dele pedindo cura, mesmo quando ele se tornou famoso por suas curas milagrosas.

Hoje, a maioria das pessoas trans no Brasil não se veem como eunucos, elas pensam em si mesmas como homens ou mulheres. Alguns de nós, se consideram não-binários ou gênero fluído, terceiro sexo ou algo assim. Em nossos tempos, alguém poderia imaginar como era ser uma mulher trans presa no mundo antigo, sem acesso a bloqueadores de testosterona, estrogênio ou mesmo a vaginoplastia moderna? Talvez o esmagamento ou remoção dos testículos e até mesmo remoção do pênis seria a forma de eliminar a produção de testosterona, e, talvez a forma de lhe dar com sua transexualidade. Em sentido real, era a melhor maneira que se tinha na tecnologia da época. Muitas pessoas que hoje são mulheres trans, provavelmente teriam sido eunucos nos tempos bíblicos. O importante é olhar firme para os eunucos mostrados nos tempos bíblicos e pensar sobre identidade de gênero das pessoas mais vulneráveis e, sobre a distante transição entre o nascimento e sua identidade. A Bíblia pode não ser capaz de ajudar com questões chaves, com a eficácia que nossa tecnologia atual ajuda em uma transição, mas, pelo menos, mostra nitidamente a atitude de que não há nada de vergonhoso, impuro ou contrário aos planos e metas de Deus se afastar do sexo atribuído ao nascer.

Continua...

Fonte: Estudos do Rev. Cindi Knox (homem trans). 

quinta-feira, 9 de abril de 2015

EXPLORAÇÃO PSICOLÓGICA E ESPIRITUAL DA EXPERIÊNCIA TRANS


Pessoas Trans e suas questões ainda são novas e desconhecidas para muitas pessoas da comunidade LGBT e seus aliados. Enquanto há décadas informamos e ensinamos as experiências sobre orientações sexuais em nossas igrejas, estamos apenas recentemente quebrando o gelo sobre a questão da identidade de gênero. Muitas pessoas estão apenas começando a fazer perguntas sobre este setor mais esquecido e estão aprendendo sobre os dons que as pessoas transexuais trazem para nossas comunidades civis e de fá.
Agrupamos dois artigos escritos recentemente por católicos com ênfase em questões transexuais a partir de duas perspectivas diferentes: o psicológico e o pastoral. Em ambos, é nítido, incluem uma dimensão de fé para as suas discussões.
O artigo psicológico foi escrito por Sydney Callahan como um post para a revista América. Callahan é um psicólogo Católico respeitado e escritor que há muito defende novos entendimentos sobre o papel da sexualidade em nossas vidas.
Refletindo sobre um ensaio da New York Times da ativista transexual Jennifer Finney Boylan, e também sobre a recente morte trágica da adolescente Leelah Alcorn (Matéria completa abaixo), Callahan sugere que é importante para todos nós compormos nossa própria "autobiografia de gênero" diz - todos nós temos que apreender a aceitar nosso gênero. Afirma:
"... Quando refletimos sobre nossa própria história de desenvolvimento, podemos ver melhor as várias complexidades envolvidas. Tanta coisa acontece por baixo e antes da percepção consciente. A identidade de gênero emerge, agora concluo, a partir de uma interação inter-relacionada de genes, influências bioquímicas no ventre materno, infantil e experiências pessoais da criança e da pressão social. O cérebro parece ser conectado cedo, talvez em diferentes graus. Mas, sem dúvida, os eventos do acaso determinam o resultado dos desenvolvimentos individuais. Enquanto Deus não comete erros trabalha através de causas secundárias, como mutações e variações aleatórias da evolução."
Ao refletir sobre nossas próprias viagens seremos capazes de ver como várias influências e lições formam nossa própria identidade de gênero. Cllahan toma nota da evolução pessoal que todo mundo passa:
"Reflexões autobiográficas nos confrontam com a questão misteriosa: 'Como é que a autoconsciência' o EU SOU 'se relaciona com o' EU 'do meu corpo mudando ao longo do tempo?'"
Independentemente da origem da identidade de gênero, os cristãos são chamados a mostrar respeito por todas as pessoas:
"Felizmente, os cristãos não têm de esperar por um consenso científico para compreender e afirmar as verdades religiosas. Sabemos que Deus nos ordena a tratar cada vida humana com justiça e amor. Em particular, devemos proteger os vulneráveis e aliviar o sofrimento. Além disso, toda identidade, atos e caráter da pessoa encarnada são mais importantes que a identidade de gênero."
Callahan termina apontando para uma nova direção que a teologia católica precisa tomar:
"Agradeço a Deus que os cristãos valorizam e protegem todas as fases e condições de vida encarnada. Nós valorizamos o embrião, feto, criança, adulto, idoso, deficientes e moribundos. E a nós tem sido prometido o dom de fazer a transição para a vida ressuscitadas como membros do corpo de Cristo. Podemos esperar agora por uma nova teologia expandida do corpo das pessoas para entender melhor o sexo e a transexualidade?"
É com esta nota espiritual e teológica que o segundo artigo que li decola. Escrito por "Sra. Mônica", um pseudônimo para uma freira católica que está no ministério pastoral com pessoas transexuais desde 1999, o ensaio Huffington Post olha para as lições pastorais que ela aprendeu com esta comunidade. (Ela preferiu permanecer anônima em sua publicidade, de modo a não atrair a hierarquia católica).
Ela descreve seu ministério como, em primeira instância, uma experiência de aprendizado, já que não tinha conhecido anteriormente quaisquer pessoas transexuais. Mas os princípios e ações ministeriais reais eram as mesmas que outras formas de ministério acompanham:
"Acredito que, quando estamos tentando viver nossas vidas de forma honesta e com integridade, estamos nos movendo em direção a Deus e não para longe dEle. Seja em um ambiente formal como em um retiro ou nas muitas maneiras informais junto a suas companheiras, devo lembrá-las de que são preciosas e amadas por Deus."
Em uma nova dimensão de sua extensão, incluía ser uma advogada e uma "ponte" para as pessoas transexuais onde quer que precisasse ser:
"...O meu grande privilégio é trazer minhas amigas transexuais para fora da escuridão, das margens da sociedade para a luz, onde possam ser vistas como são - talentosas, seres humanos que lutam como todos nós. Tenho mediado diálogo com suas famílias, quando pedido por elas. Já coordenei durante muitas noites o transporte de pessoas com mentes e corações abertos, oferecendo uma oportunidade de conhecer e conversar com minhas amigas trans."
Como Callahan, Sra. Mônica vê que a viagem transexual de auto aceitação é principalmente uma viagem espiritual:
"Nos últimos 16 anos, conheci bem mais que duas centenas de pessoas transexuais. Desde o início tive uma paixão para ser uma companheira solidária delas na jornada profundamente espiritual de reivindicar e viver em sua verdade. Meu mantra sempre foi 'Dar glórias a Deus é para nós é ser a pessoa que Deus nos fez pra ser. Quando estamos tentando viver da forma mais honesta que pudermos, nossas vidas louva a Deus.'"
Sra. Mônica reflete sobre o que o ministério com as pessoas transexuais trouxe a si mesma:
"Estou com 71 anos e tive o privilégio e a alegria de estar presente entre a comunidade transexual desde 1999. Nunca poderia ter imaginado à medida que minha vida seria moldada por elas. Elas me ensinaram muito sobre coragem, sobre o valor e o custo de serem honestas consigo mesmas, com os outros e com Deus."
Sexo tem sido muitas vezes uma influência restritiva para todas as pessoas. Os papéis de gênero raramente correspondem a complexidade individual da vida de qualquer pessoa, e podem inibir o desenvolvimento pessoal. Estou começando a aprender que as pessoas transexuais têm o dom especial de ajudar outras pessoas a superar suas expectativas de gênero e construções que prejudicam ou amortecem o indivíduo. Elas ajudam a todos tornarem-se o povo que Deus fez por amor.
Baseado no texto de Francis De Bernado, New Ways Ministry.


VONTADE DE SER UMA TRANS (EPIFANIA 2015)

 
Uma pergunta está ocupando minha mente nessa odierna festa da Epifania: a ruptura de Deus para com a humanidade significa o suicídio de uma menina trans de 17 anos?
Leelah Alcorn caminhou até uma rodoviária e terminou sua vida indo de encontro a um caminhão, três dias após o Natal. Enquanto os cristãos em todo o mundo celebravam o nascimento de Jesus, os Alcorns eram confrontados com a morte de seu próprio filho. Leelah tinha escrito sobre o suicídio em seu blog pouco antes. Essa nota encontrada aqui, na ítegra, diz o seguinte:
"A vida que eu vivo não vale a pena viver...porque sou transexual. Eu poderia entrar em detalhes explicando por que me sinto assim, mas esta nota provavelmente seria longa o suficiente como já é. Coloco simplesmente que me sinto como uma menina presa no corpo de um menino, me senti assim desde que tinha 4 anos. Eu nunca soube que existisse uma palavra para esse sentimento, nem que era possível um menino se tornar menina, então nunca disse a ninguém e, apenas continuei a fazer tradicionalmente coisas de menino" para tentar se encaixar.
"Quando tinha 14 anos aprendi o que significava transexualidade e chorei de felicidade. Após 10 anos de confusão eu finalmente entendi o que eu era. Disse imediatamente a minha mãe, e ela reagiu muito negativamente, dizendo-me que era uma fase e que eu nunca seria verdadeiramente uma menina, que Deus não comete erros e que eu estava errada. Se vocês pais estão lendo isso, por favor, não digam isso a seus filhos. Mesmo sendo cristãos ou contra as pessoas trans, nunca digam isso para alguém, especialmente a seus filhos. Isso não vai adiantar nada, a não ser fazê-los odiar a si mesmos. Isso é exatamente o que fizeram para mim."
Leelah descreve as terapias cristãs que tentaram "curá-la" e o isolamento social imposto por seus pais após sua retirada da escola. Em vez de libertar Leelah, a fé cristã daqueles que não podiam amá-la, nem entender como ela havia sido criada por Deus tornou-se cúmplice de sua morte. Ao exigir que ela estivesse de acordo com as expectativas de gênero que são irrelevantes para a verdadeira fé, e em conformidade com uma identidade falsa ante a si mesmo e diante de Deus, discípulos auto identificados de Jesus não conseguiram amar esta criança. Talvez não conheciam o que Paulo escreveu aos Gálatas que "já não há homem nem mulher, para que todos vós que são um em Cristo Jesus." Talvez simplesmente tenham esquecido que a maior Lei além de tudo é o amor. Talvez tenham sido bem intencionados, boas pessoas que simplesmente não conseguiram, como todos nós. Ao contrário de muitos, não culpo apenas os Alcorns. Simplesmente não sei os detalhes suficientes para entender suas vidas e suas relações com Leelah. Meu foco é mais amplo: este suicídio e dos mais milhares de jovens LGBT são indiciamentos de que nossas comunidades cristãs não amam de maneira concreta e real. É evidente que sua morte é o resultado de mensagens prejudiciais e intolerantes da igreja, e, concordo com Melinda Selmys sobre isso:
"Quaisquer que sejam nossas crenças ideológicas sobre gênero e sexualidade, tais crenças não devem se traduzir em isolar uma criança, privar-lhe de esperança, rejeitada por seus pais, cortadas de suas redes de apoio, negando-lhe a possibilidade de saber que não é a única pessoa a ser como ela. O amor de Deus não deve traduzir-se na matança dos inocentes. Essa nunca foi sua obra."
E sobre a festa hoje da Epifania em meio a tudo isso? "Epiphany" significa avanço. Nos tempos antigos, a revelação de Jesus 'divindade rompendo a todo mundo' era vista não só como a visita dos Reis Magos, mas no batismo de Jesus e nas bodas de Caná, casos em que Cristo quebra preconceitos e expectativas para revelar Deus em novos caminhos para novos povos. Essa ruptura divina na história humana é o evento mais radical. O suicídio de Leelah também foi uma epifania. Ele provocou conversas nacionais e uma hashtag no twitter, #RealLiveTransAdult, onde pessoas trans compartilharam suas histórias e suas vidas diante do mundo. Pessoas de todo mundo estão respondendo ao chamado de despedida de Leelah que diz que as pessoas transexuais devem ser "tratadas como seres humanos, com sentimentos válidos e direitos humanos... A minha morte deve significar alguma coisa... a sociedade deixo um POR FAVOR." Agora é hora de uma epifania sobre questões trans na Igreja Católica, bem como em outras igrejas cristãs. Devemos ajudar nossas comunidades locais e nossa igreja global a avançar do medo e da ignorância para acolher a todas as pessoas como Deus as conhece e as chama. Devemos romper nossos próprios preconceitos e desconfortos para aprender mais e crescer no amor por aquele que consideramos "outro". Vamos resolver fazer dessa epifania uma realidade. Resolver fazer que a próxima jovem trans não contemple o suicídio, mais encontre vozes de fé positiva e comunidades inclusivas. Resolver apoiar os pais a amar seus filhos e filhas trans. Resolver desafiar preconceitos anti-transexuais e corrigir informações falsas sobre gênero em nossas comunidades de fé. Resolver ser abertos ao poder de Deus que invade o nosso mundo através da divindade de Jesus e permanece até hoje por meio do Espírito, porque para Deus tudo é possível e, de fato, a surpresa é muitas vezes a maneira de Deus.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

E SE JESUS TIVESSE SIDO UMA PESSOA TRANS?

Não é sempre que somos contempladas, mas como Jesus teria vivido se tivesse nascido travesti ou transexual? Uma vez que seja apenas uma especulação, não podemos







Não é sempre que somos contempladas, mas como Jesus teria vivido se tivesse nascido uma travesti ou transexual? Uma vez que esta é apenas uma especulação, não podemos realmente saber ao certo, mas podemos olhar para seu personagem e ver mais profundamente como o seu exemplo relaciona-se com nossas vidas.

Jesus não teria deixado sua travestilidade ou transexualidade afetar seu trabalho.
Travestis e Transexuais têm inimigos suficientes neste mundo, assim como Jesus. As pessoas no poder não as respeitam e nem lhes dão favores especiais. Ele enfrentou o ridículo, o ataque, abuso físico e a humilhação, às vezes, no entanto, mesmo na cruz, na hora de sua morte, ainda fez boas ações e levantou-se para o que era correto. [Lucas 23:42-43]. Jesus também sabia o custo de ser um de seus discípulos: "Quem não carregar sua cruz e não me seguir não pode ser meu discípulo" [Lucas 14:27]. Se Jesus fosse uma pessoa trans teria lembrado consistentemente de seu objetivo principal: servir ao Senhor em todas as coisas. Teria se lembrado que sua identidade primária estava em Deus, o Pai, e, como nós, o abastecimento de Jesus esta nessa mesma identidade primária. Como resultado, podemos viver livres, fazer boas ações, e ser envolvidas no amor de Deus.

Ele não teria feito nenhuma diferença no que sua aparência exterior parecia, mas teria focado em se relacionar com pessoas de maneiras que elas entendessem.

Jesus, embora fosse o mestre de toda a criação, de forma consistente apareceu para as pessoas na aparência externa de um homem comum, revelando apenas um vislumbre de sua verdadeira aparência para Pedro, Tiago e João. Em seguida foram a uma montanha onde estavam sozinhos. Lá, ele foi transfigurado diante deles. O seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. [Mateus 17:2]. Quando Jesus volta como um homem comum, ele instruiu-os: "Não conte a ninguém o que viram, até que eu tenha ressuscitado dentre os mortos". [Mateus 17:9b]. Assim como nós, inicialmente, levamos apenas as pessoas de nossa confiança para compartilhamos nosso segredo mais íntimo sobre  nosso estado trans, assim Jesus escolheu cuidadosamente apenas alguns de seus amigos mais próximos com os quais pudesse compartilhar este íntimo momento.
Além disso, quando se considera a transfiguração de Cristo - sua única alteração física durante sua vida terrena, vemos que ele não decidiu que, por ser Deus de toda a criação, forçaria a imagem de seu corpo glorificado sobre aqueles que não conseguiriam entender. Esta parece ser outra razão para que Pedro, Tiago e João jurassem segredo. Acho que podemos nos identificar um pouco com Ele.

Ele teria se sentido tão solitário como nos sentimos às vezes.

A maioria das pessoas transexuais têm experimentado a sensação de ser um espetáculo público, uma celebridade instantânea que acompanha a sua sexualidade. Jesus não era um estranho ao escrutínio e debate público! Seu ministério estava cheio de exemplos de pessoas a persegui-lo com a intenção de condená-lo religiosamente e matá-lo. Os judeus planejaram matá-lo!
E quando Jesus não estava sendo procurado por assassinato, ele estava sendo cercado por pessoas que queriam tocá-lo e ficar perto dele por várias razões, por vezes, nem sempre puras. Mesmo entre os seus amigos mais próximos, os apóstolos, Jesus muitas vezes foi incompreendido ao descrever quem ele era. Ele era a personificação de Deus, mas era também um ser humano. Com uma vida de tal incrível celebridade, solidão e ansiedade eram suas constantes companheiras.
Por exemplo, ele confessa sua ansiedade para alguns gregos durante a Páscoa, pouco antes de sua morte. Ao prever a sua morte iminente, Jesus diz: "Agora meu coração está perturbado, e que direi eu? Pai, salva-me desta hora? Não, foi por essa razão que eu vim a esta hora. Pai, glorifica o teu nome!" [João 12:27].
Jesus verdadeiramente só encontrava a paz quando tinha tempo para comungar com Deus, o que acontecia várias vezes. "A notícia a respeito dele se espalhou ainda mais, de modo que multidões de pessoas vieram para ouvi-lo e serem curadas de suas doenças. Mas Jesus muitas vezes, retirava-se para lugares solitários e orava". [Lucas 5:15-16].

Ele teria exercido a sua vida diária, apesar de rumores selvagens e incorretos sobre ele.

Imagine por um momento. Jesus está dizendo a centenas e milhares de pessoas sobre como livre pode ser aquela que acreditar que ele é o Filho de Deus. O tempo todo ele está lidando com uma autoridade religiosa a conspirar para matá-lo, os governantes ameaçados por seu ensinamento, as pessoas por não serem muito apegadas a seus conceitos, era celebridade instantânea onde quer que fosse. No nosso mundo, onde há celebridade, há falsos rumores, e Jesus teve sua parte, assim como nós.
As autoridades religiosas o acusaram publicamente na sinagoga de ser possuído pelo demônio Belzebu, uma vez que Jesus tinha expulsado com sucesso os demônios das pessoas. [Mateus 12:24] O próprio Jesus perguntou a discípulos o que as pessoas estavam dizendo sobre ele. [Mateus 16:13-14] Então, ele aplaude Pedro por estar firme e declarar que ele é o Filho de Deus. [Mateus 16:16]. É nítido que Pedro o nega mesmo sabendo quem ele é, depois que é levado cativo.
Jesus teve sua cota de amigos de todas as horas, e sabia que tinha que seguir em frente, apesar do que as pessoas diziam sobre ele. Sua missão era mais importante do que a plena aceitação das pessoas. É um tema que conhecemos muito bem.

Ele não teria saído para agradar as pessoas, mas faria o que precisava ser feito.

A maioria das afirmações de Jesus em Mateus 16 e 17 são repreensões dirigidas a seus próprios discípulos, que iriam ser os responsáveis ​​por espalhar a notícia sobre ele depois que voltasse para o céu. Jesus se preocupava profundamente com eles, amava-os tanto quanto ama a qualquer um de nós, mas também não se importava se tinha que discipliná-los, acusando-os, por vezes, de serem infiéis, descrentes, perversos, pedra de tropeço, e geralmente equivocados. Se Jesus fosse uma pessoa trans não teria desviado de seus valores e plano, mesmo que fosse para agradar alguém.

Ele ainda teria focado nos outros, em vez de se embrulhar em si mesmo.

Qualquer pessoa pode ver Jesus Cristo parando sua missão de servir a Deus em todos os sentidos - parar de ser obediente até à morte de cruz - por causa de uma questão de gênero? Isso não minimiza o que passamos como indivíduos travestis e transexuais, mas enfatiza que Jesus não teria permitido que seu ministério paralisasse por uma questão pessoal. Ele ainda teria curado os doentes, feito os cegos ver, expulsado demônios, levantado pessoas da morte, feito deficientes andar, alimentado 9.000 pessoas com o equivalente a uma sacola de compras, e muito mais. Nós não temos esse poder divino, mas podemos lembrar de estar a serviço dos outros, não importando as nossas questões de sexualidade ou gênero.

por Michelle Dee

FONTE: http://www.transfaithonline.org/