TEOLOGIA TRANS (PARTE 1)

 
"Precisamos de um Deus-trans... que transgrida todas as nossas ideias sobre quem é, o que é e o que possa ser Deus, que nos transporte para novas possibilidades de como Deus pode encarnar a multiplicidade das formas das realizações humanas, que transfigure nossas imagens mentais de limitações, que transforme as nossas ideias sobre nossos companheiros seres humanos e sobre nós, que transcenda tudo o que sabemos ou pensamos saber sobre Deus e sobre a humanidade como IMAGO DEI". BK Hipsher

O que os cristãos devem saber sobre as pessoas travestis e transexuais? Que tipo de apoio encontramos nas várias posições da Bíblia? Como as histórias bíblicas podem laçar luz sobre a vida das pessoas trans? Talvez você, que é um/uma ministro/ministra de congregação, que tenha um amigo ou amiga trans, que tenha um filho ou filha trans queira conversar sobre o assunto. Ou talvez você seja uma pessoa trans e quer saber como o cristianismo pode lhe dar apoio. Cremos que as denominações cristãs devam apoiar as transições das pessoas trans, se esse for seu desejo. Mostrarei os principais argumentos cristãos favoráveis a aceitação das pessoas trans e, discutirei também a posição assumida por algumas denominações atualmente.

Minha experiência mostra que as questões teológicas em torno da identidade trans sejam realmente bastante diferentes das reflexões cristãs sobre lésbicas, gays e bissexuais, onde existe uma gama de discussão em diversos lugares. Vemos muitos pastores e pastoras discutirem sobre as questões bíblicas referentes as pessoas LGB, mas quase nenhum/nenhuma está familiarizado/familiarizada com as discussões e passagens bíblicas que dizem respeito a população T. Estamos focando nas pessoas trans, mas existem textos relevantes sobre pessoas não-binárias ou pessoas de gêneros fluidos. Parto do pressuposto que você já esteja familiarizado com os conceitos básicos do que seja pessoas travestis e transexuais, caso não, procure estudar tais conceitos.
ARGUMENTOS A FAVOR DAS IDENTIDADES TRANS
Argumentos do amor cristão em geral, ou inclusão, ou a valorização da diversidade, etc.

Provavelmente os argumentos mais comuns para o apoio cristão às pessoas trans seja o de enxergá-las como exemplo de um princípio mais amplo sobre o amor cristão, ou inclusão, ou uma valorização geral da diversidade. Muitas teologias pregam sobre o valor da criação de Deus. É comum salientar que Jesus intencionalmente interagiu e defendeu uma variedade de tipos de párias sociais: cobradores de impostos, prostitutas, samaritanos, pobres pescadores, leprosos, etc. Da mesma forma pode-se apontar uma injunção bíblica especial para ajudar pessoas que precisavam de ajuda, e as pessoas trans parecem precisar de ajuda em uma variedade de medidas. As Igrejas da Comunidade Metropolitana celebram as identidades trans e colocam tal experiência como parte do confiar na sabedoria de Deus "criatividade diversificada de Deus".
"Nós achamos que reivindicando nossa plena sexualidade nos tornamos um alegre ato da obediência e confiança na sabedoria de nosso Criador. Quando confiamos a expressão de nossa identidade sexual em um relacionamento amoroso e justo, nossa dependência e compromisso com a vontade de Deus é revelada e aprofundada. Se o fizermos, obrigamo-nos a uma busca sincera e continua em um caminho para Deus, nesta área mais íntima e indefesa de nossas vidas. As variedades resultantes de relacionamentos e identidade de gênero, em sua gama complexa, responsável, rica e surpreendente, são um lembrete permanente, que o plano de Deus está além da compreensão humana".
As igrejas que praticam uma comunhão aberta (incluindo muitas denominações protestantes), muitas vezes veem isso como uma extensão de um dever da igreja de ministrar a todas pessoas que estão dispostas a ser ministradas, mesmo os pecadores e, mesmo desaprovando as pessoas travestis e transexuais, consideram um dever cristão apoiá-las de várias maneiras. Existem muitas maneiras de obter argumentos para se trabalhar desta forma, e, até mesmo as tradições que se opõem as identidades trans em alguns aspectos, precisam dos outros para apoiá-los, a fim de serem coerentes com seu próprio entendimento da mensagem de Cristo.
Os "eunucos", foram parte integrante da sociedade nos tempos bíblicos, e não foram rejeitados nem pelos judeus, nem pelos cristãos
Por que devemos esperar que a Bíblia fale sobre as pessoas travestis e transexuais em todo seu contexto? Todos os dois termos são recentes, certo? Cirurgias de redesignação sexual e terapia de reposição hormonal moderna foram desenvolvidas por volta do século 20. Ser travesti ou transexual é uma coisa bastante recente, certo? Não. Nem um pouco. Nosso pensamento atual sobre travestis e transexuais e nossas técnicas médicas para auxiliar a transição são ambas muito recentes, mas as pessoas trans deram o melhor de si para viverem sua vida, em praticamente todas as culturas, presente em toda história registrada. Olhe isto deste modo, a palavra "homossexual", foi cunhada em 1896, nossa forma atual de pensar sobre homossexualidade é bastante recente, mas existiram pessoas que hoje teriam sido chamadas de homossexuais em cada cultura há milênios, porém, elas foram categorizadas de outras maneiras anteriormente. Isso é tão verdadeiro para as identidades de gênero, como é para as sexualidades homo e bi.

Ambas são registradas na Bíblia, mas, com o nome de "saris" (pl. Sarissim), em hebraico e aramaico, e "eunouchos", em grego, geralmente traduzida para "eunuco" em português. Mas "eunuco" no hebraico, aramaico, grego e na cultura romana não tinha exatamente o mesmo significado que tem no português. Por exemplo, não implicava ou exigia que a pessoa fosse castrada. Pessoas castradas são um dos vários tipos de eunucos, no latim, grego, hebraico e aramaico, uma pessoa pode ser castrada sem ser saris, ou ser uma saris sem ser castrada. Deuteronômio 23:1 usa termos diferentes para falar sobre as pessoas castradas e as com testículos esmagados. Eunouchos e saris são ambas grandes categorias projetadas para incluir lotes de diferentes tipos de pessoas que não são homens ou ex-homens, nem exatamente femininos também. Alguém nascido intersex, ou nascido do sexo masculino, mas que vivia publicamente fora das normas de masculinidade, ou alguém que queria concentrar sua vida a serviço de um rei em vez de criar uma família, ou mesmo alguém que fosse castrado, ou ainda alguém feito para viver uma vida de um terceiro sexo fazia parte desse código de eunucos do mundo antigo. Um homem que se encontrava infértil ou impotente, ou apenas impotente para com as mulheres, podia ser identificado como eunuco pelos outros, e tanto podiam concordar que eram, como podiam negar, e afirmar que eram do sexo masculino, apesar disso. Eunucos frequentemente usavam roupas do sexo feminino, ou, nas versões femininas, roupas masculinas. Eunucos eram casados. Sarissim, em particular, era associado fortemente ao serviço oficial dos palácios, e não tinham filhos. Na cultura greco-romana um homem que preferia dormir com homens, mas que se encontrava disposto e capaz a se casar e dormir com mulheres e ter filhos, era considerado dentro dos limites da normalidade, um homem que não estava disposto ou mesmo fosse incapaz de se casar com mulheres ou ser pai, era considerado um eunuco, e não um homem. É possível que os sarissim fossem trabalhados desta forma também. Uma série de estudiosos acreditam que muitas pessoas que hoje são consideradas gay, teriam sido codificadas como eunucos no antigo Israel. Romanos e Gregos descreviam eunucos como "um terceiro gênero do ser humano", como "terceiro sexo", e como "gênero do meio".

Saris e eunouchos também foram usados para traduzir identidades desconhecidas de gênero em outras culturas próximas, dos quais haviam muitos. Potifar, egípcio, (proprietário de José em Gênesis 39), era um e, provavelmente um "Sequet" (terceiro gênero, além de masculino e feminino no antigo entendimento egípcio). Mas, isso é traduzido como saris em hebraico. A erudição moderna ainda está lutando para entender o sentido de uma gama de identidades não-padrão de gênero entre os sumérios, acádios, assírios e babilônicos como "aqueles que estão diante do rei", "a terceira categoria de pessoas", ur-sal, ou Kur-ga-ra, sag-ur-sag, assinu, keleb, kulu'u, sinnisanu, entre outras. Parece que essas pessoas faziam distinção entre os ricos dos palácios e os servos de gênero queer, prostitutos sagrados, gênero fluido, homens que viviam com mulheres, homens-mulheres, homossexuais efeminados, e muitos outros. O que está nítido é que haviam muitas possibilidades de identidades de gênero não-padrão na Mesopotâmia, mas o único termo em hebraico que traduz tudo isso é saris (e ay'loint, do aramaico pode preservar algumas das distinções assírias. E temos m'hay-min, gwar-Ni-SHA-ya entre outras, para além da forma de saris). A Frígia (Phyrigians) teve os Galli, que continuou e se espalhou após sua queda, alguns dos entendimentos de gênero Galli se espalharam e provavelmente influenciaram os entendimentos mais Helênicos de Hermafrodita (Hermaphroditus), andróginos e eunucos.

Tudo bem, mas o ponto é que sarissim e eunucos são frequentemente mencionados na Bíblia, e são aceitos, de modo geral, sem comentário, hostilidades ou oposição. A Bíblia não contém condenações para eunucos, ou apelos para não deixar suas crianças virarem eunucos quando crescerem, ou dar a entender que ser eunuco era um castigo de Deus ou uma rebelião contra o plano dele. Muitos eunucos podem ter sido excluídos da casa do Senhor, mas em uma passagem mais adiante, em Isaías 56:4-5 diz: "Porque assim diz o Senhor a respeito dos eunucos, que guardam meus sábados, que escolhem coisas que me agradam e abraçam minha aliança: Darei na minha casa, dentro de meus muros, um lugar e um nome, melhor do que filhos e filhas; darei um nome eterno que nunca será apagado". Talvez Isaías tente rever e atualizar Deuteronômio, mas também é possível que os eunucos tenham um papel liminar entre os antigos hebreus, onde eram excluídos da casa de Deus, mas ainda considerados de alguma forma valiosos como membros da comunidade. A Bíblia tem muitos exemplos de eunucos que são retratados de forma basicamente favoráveis, Potifer, Aspenaz, Ebede-Meleque, um funcionário etíope sem nome que interage com Filipe, etc.

É importante ressaltar que não há registro nem de Jesus, nem dos discípulos tentando curar um eunuco. Por que não? Leprosos também eram excluídos, e um dos principais objetivos de Jesus era o de cura, incluindo os leprosos. (Marcos 1:40-45; Mateus 8:2-4; Lucas 5:12-16). Então, por que Jesus não curou eunucos castrados também, e os restaurou para sua casa? Bem, uma razão é uma citação que veremos mais à frente, outra razão possível é que simplesmente Jesus não via eunucos como tendo necessidades de cura, não tem nada de errado com eles, não são impuros, especialmente se a pessoa escolheu esse caminho. Os eunucos não vinham para cima dele pedindo cura, mesmo quando ele se tornou famoso por suas curas milagrosas.

Hoje, a maioria das pessoas trans no Brasil não se veem como eunucos, elas pensam em si mesmas como homens ou mulheres. Alguns de nós, se consideram não-binários ou gênero fluído, terceiro sexo ou algo assim. Em nossos tempos, alguém poderia imaginar como era ser uma mulher trans presa no mundo antigo, sem acesso a bloqueadores de testosterona, estrogênio ou mesmo a vaginoplastia moderna? Talvez o esmagamento ou remoção dos testículos e até mesmo remoção do pênis seria a forma de eliminar a produção de testosterona, e, talvez a forma de lhe dar com sua transexualidade. Em sentido real, era a melhor maneira que se tinha na tecnologia da época. Muitas pessoas que hoje são mulheres trans, provavelmente teriam sido eunucos nos tempos bíblicos. O importante é olhar firme para os eunucos mostrados nos tempos bíblicos e pensar sobre identidade de gênero das pessoas mais vulneráveis e, sobre a distante transição entre o nascimento e sua identidade. A Bíblia pode não ser capaz de ajudar com questões chaves, com a eficácia que nossa tecnologia atual ajuda em uma transição, mas, pelo menos, mostra nitidamente a atitude de que não há nada de vergonhoso, impuro ou contrário aos planos e metas de Deus se afastar do sexo atribuído ao nascer.

Continua...

Fonte: Estudos do Rev. Cindi Knox (homem trans).