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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O QUE A HISTÓRIA DA CRIAÇÃO EM GENESIS 1, NOS DIZ SOBRE GÊNERO?


No Princípio...

"No princípio Deus criou os céus e a terra" (Gênesis 1:1). Na primeira frase, o livro de Gênesis proclama que, antes de ter criado alguma coisa, havia Deus, o criador. Ele é o ser em que todas as criações têm seu ser; Isso inclui os animais, as plantas e a raça humana, "homens e mulheres". Em Gênesis 1:26, Deus diz: "Façamos a humanidade à nossa imagem". Esta palavra de Deus suscita muitas questões na primeira leitura. A imagem de Deus é a referência de Deus? Como alguém possui a imagem de Deus? E como a imagem de Deus é encontrada no que foi criado? O autor de Gênesis continua em 1:27:
"Então Deus criou a humanidade à sua imagem,
À imagem de Deus os criou;
masculino e feminino, ele os criou".
Aqui, Deus está criando a humanidade na própria imagem dEle, que inclui homens e mulheres. No entanto, Deus ainda é "ele" para o escritor do texto. O que isso diz sobre o gênero de Deus? E sobre nossos próprios entendimentos e relações com gênero?

Como esta história foi tradicionalmente lida?
Este texto foi utilizado em toda história da tradição cristã para defender uma dicotomia entre homens e mulheres. Esta dicotomia criou uma espécie de fronteira entre os dois que não deve ser cruzada: homens nascem homens e mulheres nascem mulheres. Nessa leitura, as pessoas de fé que não são conformes ao gênero, são uma afronta à ordem que Deus criou.

Esta maneira de ler o texto, às vezes chamada de "essencialista", o que conhecemos e estamos aprendendo sobre gênero no século XXI. Essa interpretação passa pelo caminho que a humanidade é criada "masculino e feminino, tanto na imagem de Deus". As implicações sobre a forma como pensamos o divino encontradas neste texto são ignoradas por uma leitura tradicional.

Em segundo lugar, essa leitura pressupõe que a relação da humanidade com gênero e sexo é simples. Este pressuposto é comprovadamente incorreto pelas simples experiências que conhecemos das pessoas. Aproximadamente um em cada dois mil bebes nascem com características externas do sexo (especificamente, genitálias) que não são categorizáveis como "masculino" ou "feminino". Muitas vezes, nesses casos, os médicos costumam tomar uma decisão sobre como categorizar a criança; Em casos extremos, os médicos realizam cirurgias ou outras intervenções médicas para tornar a genitália do bebê em conformidade com o gênero atribuído. A existência de pessoas intersexuais contradiz a suposição de que homens e mulheres são facilmente divididos em duas categorias muito distintas. O que significa isso para entendermos como é feito "masculino e feminino"?

Além disso, as experiências e o testemunho de pessoas transexuais têm um efeito sobre como essa passagem é lida. As pessoas trans têm identidades ou expressões de gênero que não "correspondem" ao sexo atribuído no nascimento. Se o gênero não é tão simples quanto as genitálias, como isso pode informar a maneira que lemos essa história bíblica?

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Como novos entendimentos de gênero e identidades de gênero expandem a criação de "homens e mulheres"?

Quando lemos a escritura com uma mente e um coração recheados pelas experiências de pessoas queer, intersex e trans, muitas vezes chamam de "leitura queer". Uma leitura queer desta história não acredita que a criação de Deus da humanidade como "masculino e feminino" descreve uma dicotomia estrita à qual as pessoas devam se limitar.

A teóloga Margaret Moers Wenig traz uma maneira de pensar este texto oferecendo uma espécie de afirmação para as pessoas trans de fé. Na antologia Torah Queeries, ela aborda essa questão de gênero na história da criação. Ela cita essa referência a Deus como um merismo, isto é, um dispositivo retórico onde "um todo é aludido por algumas de suas partes". Ela usa o exemplo de Deus criando dia e noite para explicar essa ideia. Quando o texto bíblico afirma "houve noite e houve manhã no primeiro dia", inclui também o crepúsculo (parte inicial da noite) e amanhecer (parte inicial da manhã). Ela argumenta que "a noite e manhã" costumam abranger todas as horas do dia. Outro exemplo bíblico de "merismo" seria o título "Alfa e Ômega" ou "inicio e fim". Quando essas frases são usadas para se referir a Deus, não significa que Deus seja apenas essas duas coisas. Muito pelo contrário; Deus é todas as coisas, não apenas o começo e o fim, mas tudo no meio.

Wening sugere que o mesmo pode ser feito com a criação de homens e mulheres. Em vez de descrever um binário simples descrevendo dois absolutos distintos, a expressão "masculino e feminino" reflete um espectro de gênero. Assim como a noite e a manhã abrangem muitos horários diferentes, os termos "masculino e feminino" indicam um espectro completo das possibilidades de identidades de gênero. É um gradiente de um belo pedaço de toda criação que, como diz Deus em Gênesis, tudo é muito bom.

Como nossos entendimentos de gênero e identidade de gênero afetam a maneira de como pensamos em Deus?

A criação humana foi representada a imagem de Deus, com a semelhança de Deus. Homens e mulheres são criados a imagem de Deus, o que significa que Deus não é estritamente masculino, mas masculino e feminino.

Se o "entre" homens e mulheres descreve um espectro de gênero na humanidade, o que ele nos revela sobre Deus? Uma leitura queer deste verso poderia ver Deus incorporando em um espectro de gênero. Deus, tendo criado a humanidade à semelhança dele, faz parte do espectro de gênero junto a nós. Deus não é só estritamente masculino, ele também não é estritamente feminino; Deus engloba todo espectro de gênero. O que isso significa para a criação é que, de certo modo, Deus nos encontra onde estamos. Teólogas feministas têm expressado Deus em formas femininas por muito tempo. Os teólogos e teólogas queer encontram nessa abertura a liberdade sagrada de fazer o mesmo, pensar em Deus de formas não convencionais de gênero.

Para trazer essa ideia de gênero de volta à criação, Deus se refere a ela na história como uma coisa particularmente - bom. Mas, novamente, Deus olha no final para toda criação de Gênesis 1 e vê não apenas o bom, mas o "muito bom" (Gn. 1:28). Esse status aplicado a toda criação, incluindo os seres humanos recém-criados, é realmente uma verdade profunda. Neste texto, Deus não esta afirmando que o que Ele criou é bom naquele momento, mas que continua a ser bom, mesmo em toda a sua diversidade. Se alguém lê Gênesis dessa maneira, a diversidade da expressão de gênero humano não se torna uma afronta à ordem da criação; em vez disso, de uma maneira profunda, se vive a verdade da criação. Uma leitura queer da criação revela ao leitor o que a própria natureza já nos afirmou através dos estudos científicos, a criação, ou a natureza, é uma coisa muito complexa; não existe em singularidades ou binarismo. Em vez disso, existe em quantidades ilimitadas de combinações de traços e aparências. Uma leitura da história da criação que assinala a existência de pessoas LGBT, ao contrário de uma leitura tradicional, heteronormativa e cissexista, afirma uma criação complexa e diversa.

A verdade é que as pessoas LGBT, especialmente aquelas que subvertem as expectativas de comportamento e existência, complicam a criação, ou melhor, complicam uma imagem tradicional da criação. O fato de existirem pessoas das quais homens e mulheres sejam categorias que não as encaixam, mostra que a criação, no seu núcleo, não é um fenômeno simples. Em vez disso, é um sistema grande, diversificado e complicado que inclui corpos que não fazem sentido para uma compreensão tradicional. Uma compreensão da criação que leva em conta esses corpos complexos afirma a verdade da natureza. Além disso, essa ideia de criação aponta, também, para um divino que não é tão simples quanto preferimos. Em vez disso, encontramos um Deus que é tão complexo quanto a criação em cuja imagem é feita.

Fonte: http://queergrace.com.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

GÊNESIS: "MACHO E FÊMEA (E OUTROS) OS CRIOU"

O primeiro e mais óbvio recurso de Gênesis 1 e 2 é o de perceber que toda a criação de Deus é uma festa. Antes de chegar ao "homem e mulher", vamos considerar o resto.
No primeiro dia, "Deus separou a luz das trevas. Deus chamou à luz dia, e a noite trevas. "Será que isso significa que não há nada entre os dois? Claro que não. Há o crepúsculo, e, não se fala do crepúsculo. A noite pode ser bem iluminada por uma lua cheia, o dia pode ser maçante e nublado. Mas, ainda assim, não há noite e dia, escuridão e luz - que neguem a existência de estados intermediários.
  

No segundo dia, Deus "fez a expansão, e fez a separação entre as águas que estavam debaixo da expansão e as águas que estavam sobre a expansão... e a chamou expansão do céu". Nós sabemos pela ciência que não há uma "expansão" acima, como um objeto fixo, mas aceitamos a existência de algo que chamamos de "céu", embora não possamos dizer onde exatamente ele começa ou termina.
No terceiro dia, Deus separou a terra das águas. "Deus chamou ao elemento seco terra, e as águas chamou Mares." Mais uma vez, nós sabemos que a partir de uma simples observação isso simplifica o quadro. Na terra há também rios e lagos, bem como pântanos, mangues e deltas que não são claramente molhados ou secos, ou que podem variar de estado com as estações. No litoral, há zonas entre-marés, que são terra durante a maré baixa, e mar em durante a alta. Nos oceanos, há zonas árticas onde o mar congelado cria plataformas de gelo, uma forma de terra "seca". Entretanto, nada disso nega o conceito de uma diferença entre a terra seca e mar - e o uso desse conceito não nega a existência de estados intermediários. Também no terceiro dia, Deus criou as plantas:
Então Deus disse: "Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvores frutíferas que dê frutos segundo a sua espécie, cuja semente está nela sobre a terra" E assim foi.
Mas onde, nesta descrição, estão as plantas que não produzem sementes ou frutas? Elas não são parte da criação? 
No quarto dia, Deus disse: "Haja luzeiros no firmamento dos céus para separar o dia da noite", e por isso ele criou o sol, a lua e as estrelas. Da ciência, porém, sabemos que isso não completa o quadro: o que comumente chamamos de "estrelas" incluem as verdadeiras estrelas da astronomia (que na verdade são todas sóis, como o que nos é familiar, mas muito mais distantes), mas também inclui planetas próximos que mostram apenas a luz refletida e galáxias tão distantes de nós que a olho nu se assemelham a estrelas individuais. Às vezes, o céu também inclui o que parecem ser estrelas cadentes, meteoritos entrando na atmosfera, e os cometas. Aqui também, a realidade da criação mostra uma abundância de formas para além daquelas incluídas na descrição simples "o sol, a lua e as estrelas".
No quinto dia, Deus criou os animais. Aqui, parece haver reconhecimento da diversidade da vida:
E Deus disse: "Que as águas tragam enxames de seres vivos e que as aves voem acima da terra através da abóbada do céu." Assim Deus criou os grandes monstros marinhos e toda criatura vivente que se move, de qualquer natureza, nas abundantes águas, e todas as aves de todos os tipos. E Deus viu que isso era bom.

Ainda assim, mesmo nesse caso, a lista não é de fato completa. Ao especificar as "criaturas que se movem", qual a norma usada para os mexilhões e lapas do mar que não se movem, mas se agarram às rochas para se estabilizarem? Com qual dessas criaturas vivas podemos comparar as bactérias e os vírus? Eles não são parte da criação de Deus?
Claro que são. O ponto é, que a narrativa da criação em Gênesis 1 é uma obra literária não um catálogo científico. Para listar todas as formas de vida simples seria francamente impossível - mesmo hoje, há inúmeras espécies ainda não descobertas. O escritor de Gênesis não tenta nomear cada parte da criação, e excluir o que não é nomeado. Em vez disso, ele usa um artifício literário para formar uma impressão da diversidade da criação - e que belo trabalho ele faz.
Ele começa com uma descrição do vazio, mas vai adicionando a cada dia, culminando numa impressionante narrativa da grandeza de toda a criação, com a humanidade no ápice - ainda que, como descrito acima, não identifique todas as partes da criação, mas apenas alguns componentes-chave. Os artistas visuais entendem tal técnica - nenhum pintor tenta mostrar em uma paisagem cada folha da realidade, cada grama, cada galho. Na arte, menos é mais. O escritor de Gênesis 1 usou a arte para criar uma impressão de toda a diversidade da criação, por uma seleção cuidadosa.
Assim é com a descrição do sexto dia.
E criou Deus o homem à sua imagem, 

à imagem de Deus o criou; 

homem e mulher os criou (1:27)
De uma perspectiva heterossexista, lendo este versículo isoladamente, é natural que a referência a "homem e mulher" seja usada para apoiar a visão heteronormativa que acredita na existência de apenas dois sexos biológicos e, por extensão dois papéis de gênero associados, e uma única orientação erótica heterossexual. Tal leitura estreita no entanto, é contrária a do conselho sobre interpretação bíblica da Comissão Pontifícia Bíblica, com o conhecimento que obtemos da ciência - e até mesmo das tradições mais antigas da exegese bíblica sobre tal passagem.
A Comissão adverte fortemente contra interpretações superficiais de versos simples. Em vez disso, é importante considerar o contexto mais amplo da passagem como um todo, a forma literária também requer uma atenção especial à linguagem. Tudo isso conduz a uma interpretação diametralmente oposta ao entendimento restrito de "homem e mulher", como única compreensão de sexo, gênero e orientação descrita como modelo. Isto é tão inverdade como negar a existência de rios, estuários e pântanos, só porque a Terra e o Mar são nomeados para representar a terra seca e é água, ou negar os planetas, cometas e galáxias porque somente o sol, a lua e as estrelas são explicitamente descritos. Leia na íntegra, como uma passagem expressiva e poderosa de literatura, em vez de um catálogo científico, esta é uma celebração da diversidade da criação. Isso inclui a diversidade de sexo biológico, gênero e orientação que nós, como comunidade LGBT encarnamos - e todos são feitos "à imagem de Deus".
Para uma visão científica sobre o assunto, é preciso não olhar para as palavras de Gênesis, como resultados de uma pesquisa empírica. Estes mostram claramente que a humanidade inclui dois sexos biológicos primários, mas também uma proporção pequena, mas mensurável, de pessoas com uma variedade de condições hermafroditas. Simplesmente não é verdade que existam apenas os sexos masculino e feminino, e que todos os seres humanos são uma coisa ou outra. Também não é verdade que existam apenas dois sexos, ou que estes sejam identificados como o sexo biológico. Em muitos períodos históricos e regiões geográficas, algumas sociedades reconheceram outras possibilidades. Há homens que assumiram o sexo feminino e mulheres que assumiram papéis masculinos - como por exemplo: "as esposas garotos e maridos fêmeas", descritos na África ou "pessoas de dois espíritos" descritos pelos nativos americanos. Também não é a orientação sexual necessariamente determinada por qualquer combinação de sexo e gênero, ou mesmo uma simples questão de ou/ou. Nas sociedades em que o reconhecimento social era dado a pessoas que viviam com gêneros diferentes de seu sexo biológico, existiam relações sexuais, e, em alguns casos com pessoas do mesmo sexo mas com parceiros de gênero oposto, e em outros casos com o sexo oposto mas parceiros do mesmo gênero. Mesmo restringindo cada uma dessas dimensões de sexo, gênero e orientação para apenas duas possibilidades, isso leva a oito combinações possíveis - mas sabemos que em cada dimensão, há muito mais do que apenas duas possibilidades.
Isto é especialmente verdadeiro para a orientação. Embora na cultura ocidental moderna, temos a tendência de pensar em termos de uma dicotomia hetero/homo, com algum reconhecimento de uma minoria bissexual, a consideração histórica, antropológica social e psicológica sugere que na verdade todos nós somos por natureza colocado em algum lugar num continuum bissexual, a partir do qual pelo condicionamento social e por circunstâncias pessoais acabamos forjando uma vida pessoal mais estreitamente identificada com um ou outro.
A ciência, portanto, suporta a leitura de Gênesis como uma celebração da diversidade, incluindo uma diversidade sexual e de gênero.
Até os primeiros escritores judeus e cristãos não veem Gênesis restringir a humanidade a apenas uma dicotomia do sexo masculino e feminino, como Michael Carden observa em seu comentário sobre o Gênesis 1 & 2:
"Aponta Sally Gross que no Judaísmo Rabínico houve o reconhecimento de que nem todo mundo nasceu do sexo masculino ou feminino. Textos rabínicos usam dois termos, Tumtum e 'aylonith, para designar pessoas de sexo intermediário... Similarmente no Cristianismo, o hermafrodita era uma categoria humana reconhecida".
Isso é profundamente enraizada no próprio texto da criação em Gênesis, na versão alternativa contida no capítulo 2, no verso geralmente (mal) traduzido como:
"Então o Senhor formou o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem se tornou um ser humano" (2, 7).
Na verdade, tanto Carden como Salzmann & Lawler deixam claro, que a palavra hebraica que aqui se refere a "homem" é 'adam - não seria de se esperar que o nome do homem fosse Adão', mas esse é um termo de gênero neutro para uma planta trepadeira andrógena um proto-humano formado a partir do solo. Só mais tarde se reconhece a necessidade desse pequeno ser humano ter uma companhia, separou então o Senhor o único gênero proto-humano em dois gêneros distintos.
Então, a noção de "LGBT" em Gênesis é uma distorção das Escrituras? Deixo-vos julgar. Minha opinião, porém, é que a distorção vem de interpretações heteronormativas, que ignoraram o contexto como um todo, e com o seu viés natural de ter lido inadequadamente uma poderosa apresentação literária da história da criação como um relato científico da sexualidade natural - que claramente não é.

Fonte: http://queeringthechurch.com/