GÊNESIS: "MACHO E FÊMEA (E OUTROS) OS CRIOU"

O primeiro e mais óbvio recurso de Gênesis 1 e 2 é o de perceber que toda a criação de Deus é uma festa. Antes de chegar ao "homem e mulher", vamos considerar o resto.
No primeiro dia, "Deus separou a luz das trevas. Deus chamou à luz dia, e a noite trevas. "Será que isso significa que não há nada entre os dois? Claro que não. Há o crepúsculo, e, não se fala do crepúsculo. A noite pode ser bem iluminada por uma lua cheia, o dia pode ser maçante e nublado. Mas, ainda assim, não há noite e dia, escuridão e luz - que neguem a existência de estados intermediários.
  

No segundo dia, Deus "fez a expansão, e fez a separação entre as águas que estavam debaixo da expansão e as águas que estavam sobre a expansão... e a chamou expansão do céu". Nós sabemos pela ciência que não há uma "expansão" acima, como um objeto fixo, mas aceitamos a existência de algo que chamamos de "céu", embora não possamos dizer onde exatamente ele começa ou termina.
No terceiro dia, Deus separou a terra das águas. "Deus chamou ao elemento seco terra, e as águas chamou Mares." Mais uma vez, nós sabemos que a partir de uma simples observação isso simplifica o quadro. Na terra há também rios e lagos, bem como pântanos, mangues e deltas que não são claramente molhados ou secos, ou que podem variar de estado com as estações. No litoral, há zonas entre-marés, que são terra durante a maré baixa, e mar em durante a alta. Nos oceanos, há zonas árticas onde o mar congelado cria plataformas de gelo, uma forma de terra "seca". Entretanto, nada disso nega o conceito de uma diferença entre a terra seca e mar - e o uso desse conceito não nega a existência de estados intermediários. Também no terceiro dia, Deus criou as plantas:
Então Deus disse: "Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvores frutíferas que dê frutos segundo a sua espécie, cuja semente está nela sobre a terra" E assim foi.
Mas onde, nesta descrição, estão as plantas que não produzem sementes ou frutas? Elas não são parte da criação? 
No quarto dia, Deus disse: "Haja luzeiros no firmamento dos céus para separar o dia da noite", e por isso ele criou o sol, a lua e as estrelas. Da ciência, porém, sabemos que isso não completa o quadro: o que comumente chamamos de "estrelas" incluem as verdadeiras estrelas da astronomia (que na verdade são todas sóis, como o que nos é familiar, mas muito mais distantes), mas também inclui planetas próximos que mostram apenas a luz refletida e galáxias tão distantes de nós que a olho nu se assemelham a estrelas individuais. Às vezes, o céu também inclui o que parecem ser estrelas cadentes, meteoritos entrando na atmosfera, e os cometas. Aqui também, a realidade da criação mostra uma abundância de formas para além daquelas incluídas na descrição simples "o sol, a lua e as estrelas".
No quinto dia, Deus criou os animais. Aqui, parece haver reconhecimento da diversidade da vida:
E Deus disse: "Que as águas tragam enxames de seres vivos e que as aves voem acima da terra através da abóbada do céu." Assim Deus criou os grandes monstros marinhos e toda criatura vivente que se move, de qualquer natureza, nas abundantes águas, e todas as aves de todos os tipos. E Deus viu que isso era bom.

Ainda assim, mesmo nesse caso, a lista não é de fato completa. Ao especificar as "criaturas que se movem", qual a norma usada para os mexilhões e lapas do mar que não se movem, mas se agarram às rochas para se estabilizarem? Com qual dessas criaturas vivas podemos comparar as bactérias e os vírus? Eles não são parte da criação de Deus?
Claro que são. O ponto é, que a narrativa da criação em Gênesis 1 é uma obra literária não um catálogo científico. Para listar todas as formas de vida simples seria francamente impossível - mesmo hoje, há inúmeras espécies ainda não descobertas. O escritor de Gênesis não tenta nomear cada parte da criação, e excluir o que não é nomeado. Em vez disso, ele usa um artifício literário para formar uma impressão da diversidade da criação - e que belo trabalho ele faz.
Ele começa com uma descrição do vazio, mas vai adicionando a cada dia, culminando numa impressionante narrativa da grandeza de toda a criação, com a humanidade no ápice - ainda que, como descrito acima, não identifique todas as partes da criação, mas apenas alguns componentes-chave. Os artistas visuais entendem tal técnica - nenhum pintor tenta mostrar em uma paisagem cada folha da realidade, cada grama, cada galho. Na arte, menos é mais. O escritor de Gênesis 1 usou a arte para criar uma impressão de toda a diversidade da criação, por uma seleção cuidadosa.
Assim é com a descrição do sexto dia.
E criou Deus o homem à sua imagem, 

à imagem de Deus o criou; 

homem e mulher os criou (1:27)
De uma perspectiva heterossexista, lendo este versículo isoladamente, é natural que a referência a "homem e mulher" seja usada para apoiar a visão heteronormativa que acredita na existência de apenas dois sexos biológicos e, por extensão dois papéis de gênero associados, e uma única orientação erótica heterossexual. Tal leitura estreita no entanto, é contrária a do conselho sobre interpretação bíblica da Comissão Pontifícia Bíblica, com o conhecimento que obtemos da ciência - e até mesmo das tradições mais antigas da exegese bíblica sobre tal passagem.
A Comissão adverte fortemente contra interpretações superficiais de versos simples. Em vez disso, é importante considerar o contexto mais amplo da passagem como um todo, a forma literária também requer uma atenção especial à linguagem. Tudo isso conduz a uma interpretação diametralmente oposta ao entendimento restrito de "homem e mulher", como única compreensão de sexo, gênero e orientação descrita como modelo. Isto é tão inverdade como negar a existência de rios, estuários e pântanos, só porque a Terra e o Mar são nomeados para representar a terra seca e é água, ou negar os planetas, cometas e galáxias porque somente o sol, a lua e as estrelas são explicitamente descritos. Leia na íntegra, como uma passagem expressiva e poderosa de literatura, em vez de um catálogo científico, esta é uma celebração da diversidade da criação. Isso inclui a diversidade de sexo biológico, gênero e orientação que nós, como comunidade LGBT encarnamos - e todos são feitos "à imagem de Deus".
Para uma visão científica sobre o assunto, é preciso não olhar para as palavras de Gênesis, como resultados de uma pesquisa empírica. Estes mostram claramente que a humanidade inclui dois sexos biológicos primários, mas também uma proporção pequena, mas mensurável, de pessoas com uma variedade de condições hermafroditas. Simplesmente não é verdade que existam apenas os sexos masculino e feminino, e que todos os seres humanos são uma coisa ou outra. Também não é verdade que existam apenas dois sexos, ou que estes sejam identificados como o sexo biológico. Em muitos períodos históricos e regiões geográficas, algumas sociedades reconheceram outras possibilidades. Há homens que assumiram o sexo feminino e mulheres que assumiram papéis masculinos - como por exemplo: "as esposas garotos e maridos fêmeas", descritos na África ou "pessoas de dois espíritos" descritos pelos nativos americanos. Também não é a orientação sexual necessariamente determinada por qualquer combinação de sexo e gênero, ou mesmo uma simples questão de ou/ou. Nas sociedades em que o reconhecimento social era dado a pessoas que viviam com gêneros diferentes de seu sexo biológico, existiam relações sexuais, e, em alguns casos com pessoas do mesmo sexo mas com parceiros de gênero oposto, e em outros casos com o sexo oposto mas parceiros do mesmo gênero. Mesmo restringindo cada uma dessas dimensões de sexo, gênero e orientação para apenas duas possibilidades, isso leva a oito combinações possíveis - mas sabemos que em cada dimensão, há muito mais do que apenas duas possibilidades.
Isto é especialmente verdadeiro para a orientação. Embora na cultura ocidental moderna, temos a tendência de pensar em termos de uma dicotomia hetero/homo, com algum reconhecimento de uma minoria bissexual, a consideração histórica, antropológica social e psicológica sugere que na verdade todos nós somos por natureza colocado em algum lugar num continuum bissexual, a partir do qual pelo condicionamento social e por circunstâncias pessoais acabamos forjando uma vida pessoal mais estreitamente identificada com um ou outro.
A ciência, portanto, suporta a leitura de Gênesis como uma celebração da diversidade, incluindo uma diversidade sexual e de gênero.
Até os primeiros escritores judeus e cristãos não veem Gênesis restringir a humanidade a apenas uma dicotomia do sexo masculino e feminino, como Michael Carden observa em seu comentário sobre o Gênesis 1 & 2:
"Aponta Sally Gross que no Judaísmo Rabínico houve o reconhecimento de que nem todo mundo nasceu do sexo masculino ou feminino. Textos rabínicos usam dois termos, Tumtum e 'aylonith, para designar pessoas de sexo intermediário... Similarmente no Cristianismo, o hermafrodita era uma categoria humana reconhecida".
Isso é profundamente enraizada no próprio texto da criação em Gênesis, na versão alternativa contida no capítulo 2, no verso geralmente (mal) traduzido como:
"Então o Senhor formou o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem se tornou um ser humano" (2, 7).
Na verdade, tanto Carden como Salzmann & Lawler deixam claro, que a palavra hebraica que aqui se refere a "homem" é 'adam - não seria de se esperar que o nome do homem fosse Adão', mas esse é um termo de gênero neutro para uma planta trepadeira andrógena um proto-humano formado a partir do solo. Só mais tarde se reconhece a necessidade desse pequeno ser humano ter uma companhia, separou então o Senhor o único gênero proto-humano em dois gêneros distintos.
Então, a noção de "LGBT" em Gênesis é uma distorção das Escrituras? Deixo-vos julgar. Minha opinião, porém, é que a distorção vem de interpretações heteronormativas, que ignoraram o contexto como um todo, e com o seu viés natural de ter lido inadequadamente uma poderosa apresentação literária da história da criação como um relato científico da sexualidade natural - que claramente não é.

Fonte: http://queeringthechurch.com/