sexta-feira, 1 de agosto de 2014

A MULHER CANANÉIA E NOSSA HUMANIDADE COMUM

Nós naturalmente esperamos que os evangelhos relatem Jesus como o único na história a mostrar sabedoria, compaixão e virtudes divinas. Aqui ele expõe engano e interesses próprios. Francamente, Jesus não se sai bem neste encontro com a mulher Cananéia. Somos tentados a justificar o comportamento impróprio de Jesus e fingir que não o vimos. Se conseguirmos resistir a essa tentação de salvar Jesus, e nós, dessa vergonha, podemos descobrir alguns novos insights na história do Evangelho de Jesus em Mateus.
Em primeiro lugar, Jesus ignora a suplica da mulher Cananéia por misericórdia por sua filha. Ele responde a ela, dizendo que as suas necessidades não são preocupações dele. Com a persistência dela, o insulto torna-se termo depreciativo que exibe velhas hostilidades para com um dos mais antigos inimigos de Israel. Ele compara a mulher e sua filha, com os cães implorando por restos da mesa. De acordo com a versão de Marcos da história, a mulher é identificada como uma mulher siro-fenícia. O relato de Mateus apresenta uma mulher Cananéia. A referência a "cananeu" evoca preconceito nacional profundamente enraizado.
Alguns comentaristas sugerem que "siro-fenícia" ou "cananeu" indica apenas que a mulher era uma gentia, e ambas as descrições evocam antipatia dos judeus para os gentios. Mas esta visão implica que todos os judeus detestavam e evitavam todo o não judeu. No primeiro século os judeus eram diferentes em suas atitudes para com os gentios e até interagiam com eles no tempo de Jesus, bem como quando o Evangelho de Mateus foi escrito no final do primeiro século. A História do Evangelho de Mateus tem muitas referências a gentios, algumas positivas e outras negativas. O escritor do evangelho mostra atitudes judaicas comuns descrevendo gentios exibindo comportamentos desprezíveis. Por exemplo, Jesus diz: "Quando orares, não use de vãs repetições, como os gentios." (6:7). Quando admoestou os discípulos a não se preocupar com comida, bebida ou roupa, diz: "Pois são os gentios que se esforçam por todas estas coisas." (6:32). Mas, na parábola do juízo final, quando todos os gentios são reunidos diante do Filho do Homem, ele separa as ovelhas dos cabritos. Alguns gentios são "ovelhas" que herdam o reino e alguns são "bodes" que não herdam (25:31 ss). No final de Mateus, Jesus ressuscitado envia seus discípulos para irem atrás levantando discípulos entre os gentios (28:19).
O Termo usual de Mateus para gentios, às vezes traduzida como "nações" é ethne ou panta ta ethne. Este é o termo comum para os gentios, ou não-judeus, na literatura judaica escrita em grego durante esse período. Ele pode ter conotações negativas ou positivas, ou até mesmo neutras. A designação "cananeu" certamente define a mulher como uma gentia, mas não qualquer gentio. O termo transmite profundos preconceitos históricos que "siro-fenícia" não o faz. A referência é bíblica. Pois não havia cananeus que vivessem no primeiro século, assim o rótulo não descreve encontros atuais. O rótulo evoca conflitos históricos e, portanto, define a mulher em termos de preconceitos seculares que o público judeu do primeiro século entendia. Esta distinção é importante por duas razões. Primeiro, ele desafia a suposição cristã comum que os judeus evitavam toda a interação com os não-judeus. Em segundo lugar, que dá uma inclinação diferente para as ações de Jesus.
Sabemos que a narrativa do evangelho é sobre Jesus e olhar dele para o significado desta história. Gostaríamos de estar errado, porém, só se não prestarmos muita atenção para a mulher nessa história. O modelo do comportamento humano da mulher Cananéia é mais admirável que o de Jesus. Ela mostra vontade de ser vulnerável, procurando a ajuda de um inimigo de longa data mesmo sabendo que será desprezada por causa de divisões nacionais e raciais. Ela pede ajuda para sua filha, e não para si mesma. Ela é persistente em face aos insultos e rejeições, pelo amor de sua filha. A mulher Cananéia tem as melhores respostas da história, especialmente sua última. "Me chame de cachorro", diz ela, "mas até mesmo os cães recebem as migalhas que caem da mesa." Ela é uma azarona sortuda (trocadilho intencional), que ganha o prêmio de maior valor para qualquer mãe, judia ou uma desprezada Cananéia - a saúde e bem-estar de sua filha.
Claro que a história é sobre Jesus. Vemos um Jesus muito humano. Nós nos vemos espelhados na atitude de Jesus para com a mulher Cananéia, mas não no melhor de nós. Sabemos muito bem a tendência de definir e temer o "outro" com base na cor da pele, nacionalidade, classe ou credo são estereótipos profundamente enraizados e que remontam a gerações ou mesmo séculos. Tememos ser incomodados pelas preocupações dessas pessoas. Nós temos nossos próprios filhos para cuidar. Quando eles persistirem, insistindo na igualdade de tratamento e justiça para seus filhos, recorremos a insultos raciais entre outros insultos. E nós somos muito bons em justificar nossas ações, em vez de admitir o preconceito que ainda persiste.

A história é sobre Jesus e, nele, vemos o melhor do potencial humano no relacionamento com os outros, mesmo com aqueles que tanto evitamos e tememos. Vemos em Jesus a possibilidade de perceber a humanidade comum onde podíamos ver apenas a diferença. E quando nos deparamos com o "outro" como alguém que partilha a nossa humanidade, nunca mais poderemos vê-lo como "outro" novamente. A mulher Cananéia tem as melhores respostas desta história, mas Jesus tem a última palavra: "Mulher, grande é a tua fé, que seja feito como queres." Não mais  "Cananéia", mas simplesmente "mulher". Ela nunca mais será definida pelo preconceito nacional, racial ou religioso novamente. Ela agora é uma mãe como qualquer outra que busca desesperadamente ajuda para sua filha. E, pelo amor dessa mãe, Jesus cura a filha. E, talvez, Jesus nos cure, também, da tentação de ficarmos com os velhos estereótipos e hábitos que nos impedem de abraçar a nossa humanidade comum.