TEOLOGIA TRANS DE JESUS CRISTO (PARTE 2)

 
Jesus sobre os três tipos de eunucos
A passagem chave que muitas pessoas trans usam para compreender sua relação com as escrituras é Mateus 19:11-12:
"Mas ele [Jesus] disse-lhes [aos discípulos]: Nem todos podem receber esta palavra, mas apenas aqueles a quem é dado. Porque há eunucos que são assim desde seu nascimento, e há aqueles que foram castrados pelos homens; e há os que se fizeram eunucos por amor do reino dos céus. Aquele que tem ouvido para ouvir, ouça".
Os que já nasceram trans, não têm a opção de ser cisgênero, apenas a opção entre ser abertamente trans, tentando fazer o melhor para ser feliz, ou repreender sua transexualidade, tentando fingir ser cis. Sim, o próprio Jesus afirmou tal questão: "há eunucos que são assim desde seu nascimento..." Sendo esse o caso, a transição é apenas um processo de tornar manifesto o que já faz parte da pessoa desde seu nascimento. Mas, ainda mais tentador é Jesus afirmar que algumas pessoas se fazem eunucos por causa do reino dos céus. Neste caso, a transição pode ser uma resposta apropriada para sua própria participação no reino dos céus, ou para suas tentativas de ser um/uma membro apropriado/apropriada do reino dos céus. Tornando-se um/uma eunuco, não é apenas não-vergonhoso e permitido, mas pode ser uma coisa positiva realizada pela razão certa de ser ativamente agradável a Deus. Pelo menos é o que Jesus diz.

Porém, essa passagem tem rodado de diferentes maneiras por diferentes pessoas. O contexto imediato anterior é uma pergunta dos fariseus sobre casamento e divórcio e dos discípulos perguntando se devem evitar o completamente o casamento. Assim, muitos (especialmente católicos), interpretam isso como uma discussão sobre o celibato dos padres, e, o processo de se tornar "eunuco para o reino de Deus" é muitas vezes entendido ao lado do comentário de Paulo sobre o casamento (1 Coríntios 7). Mas mesmo que este seja um dos entendimentos desta passagem, não existe nenhuma razão para não pensar que Jesus também estivesse falando sobre a natureza e o papel social dos eunucos. É muito difícil ler esta passagem sem pensar nas ideias bíblicas mais amplas do comportamento LGBT. Aqui, Jesus está falando especificamente aos discípulos (não aos fariseus), que tinham se tornado alvos certos da malha do povo, pois viajavam, todos solteiros e, certamente levantavam suspeitas em seu tempo. Nenhum dos discípulos parece ter tido filhos, e, só Pedro é registrado como tendo sido casado (e mesmo esse parece que já estava viúvo quando encontrou com Jesus, e nunca se casou novamente). Mas, mesmo sendo esse um dos tons desta passagem, ela parece mais, ser sobre eunucos reais, em vez de apenas pessoas que possam ser confundidas com eunucos. Não há evidências de nenhum dos discípulos ter sido identificado publicamente como eunuco durante sua vida, apesar de existir registros dos pais da igreja os chamando de eunucos mais tarde. Certamente alguns cristãos também confundiram Jesus com um eunuco. Note também, que o resto de Mateus 19 é sobre a boa vida cristã e sobre um jovem que está sendo tentado a juntar-se ao bando de Jesus, mas decide não fazer para voltar a sua vida normal e familiar. Podemos interpretar está a luz do que vem imediatamente após, tanto a luz do que vem imediatamente antes.
Jesus e o Transportador de Cântaro
Outro conjunto de passagens que revela atitudes de Jesus para com as pessoas trans ou não conformes com seu gênero, é a história do transportador de água, imediatamente antes da Última Ceia, em Mateus 26:17-19; Marcos 14:12-16 e Lucas 22:7-13. Detalharei mais essa história em outra publicação. Para entender a história você precisa muito do fundo cultural. É o dia dos pães ázimo, o dia chave da Páscoa. Esse é o maior feriado judaico do ano, uma época em que todos e todas na Judéia devem visitar Jerusalém, e cada família deve consagrar um cordeiro em sacrifício no Templo, e depois comê-los juntos à noite, em um grande jantar familiar. Neste período, a cidade ficava repleta de pessoas, e todos que podiam, e se preocupavam com a tradição, se reuniam com os familiares. Mas os discípulos não estão com suas famílias, eles estão com Jesus. Eles perguntam ao mestre se estão indo celebrar a Páscoa juntos, e em caso afirmativo, onde e como? (Nesse momento, eles já estão no final de sua jornada). Jesus manda-os ao encontro de "um homem carregando um cântaro de água (Mateus é mais ambíguo). Como eles encontrariam um homem levando um cântaro de água em uma Jerusalém cheia? Não é lá que estão milhares de homens preparando uma festa com seus familiares? Bem, na verdade, não. Na cultura judaica da época, apenas mulheres carregavam cântaros de água. Os homens às vezes carregavam cantinas ou odres, especialmente quando viajavam, mas os grandes jarros de água utilizados para o fornecimento de uma casa com água de poço, era um trabalho extremamente feminino. Qualquer homem que levasse em público cântaros de água, ou era: a) um homem fazendo seu melhor para viver como mulher na sociedade; b) ou não havia nenhuma mulher naquela casa e o homem não se importava de fazer o papel feminino em público. Mas Mateus, usa uma estranha construção para tentar evitar dizer o gênero dessa pessoa (chamando de "um certo alguém", DEINA. Essa é a única vez que essa frase é usada no Novo Testamento), o que, nos faz inclinar-nos para primeira interpretação. 

De qualquer modo, a transportadora (prefiro chamá-la assim) de cântaro leva os discípulos a uma casa onde vive com um "mestre de família", que os acolhe e proporciona-lhes uma sala superior para preparação da Páscoa. Tudo bem, isso foi muito rápido, mas nos aprofundemos. Por que esta casa não está cheia com seus familiares? Talvez nem a Transportadora de cântaro, nem o mestre da casa tenham familiares vivos (exceto, talvez, um ou outro). Ou talvez suas famílias sejam afastadas deles. De qualquer forma, eles não tinham ido jantar com seus familiares, e nem suas famílias vieram ter com eles para a Páscoa. Além disso, Jesus parece saber perfeitamente que o dono da casa irá acolhê-lo, junto com seus 12 discípulos, para uma enorme refeição, mesmo no último minuto. Além disso, Jesus espera que o dono da casa tenha espaço para eles. Jesus sabe que o dono da casa e a Transportadora de cântaro não terão familiares presentes. É provável, que eles tenham sido rejeitados por suas famílias, e por isso, tenham espaço suficiente para Jesus e seus discípulos. Além disso, por que Jesus não os levou para casa de Maria, sua mãe (e de seus irmãos, ou meio irmãos, dependendo de sua interpretação), em vez da casa daquele desconhecido? Jesus escolhe simbolicamente a casa da Transportadora de cântaro e do mestre da casa para dizer que essa é sua verdadeira família, e não Maria e seus irmãos. E, este é o tema que percorre todo o Novo Testamento (incluindo Mateus 19).

Mais uma vez, permita que isso flua em sua mente. Jesus conhece uma pessoa que parece ser homem para alguns escritores, mas, que atua publicamente como mulher, e, conta com essa pessoa para tratá-los como se fossem seus familiares próximos, juntamente com seus discípulos. A Transportadora de cântaro e o mestre de família iam preparar uma festa para dois, mas para ajudar Jesus e seus discípulos, preparam uma festa para quinze em um único dia. Imagine que no natal, você e seu parceiro não são bem-vindos na casa de seus familiares, e que, eles também não estão dispostos a vir à sua casa, talvez por causa de seu estilo de vida incomum. E, em seguida, um pouco antes da refeição, um estudante, mandado por seu mestre diz: Pode treze pessoas almoçar em sua casa, para celebrar o feriado nesta noite? Falando com uma dona de casa trans, acho absolutamente anormal. Mas eles respondem sim, e abrem sua casa com um feito épico de hospitalidade. E em vez de uma refeição para dois em uma casa vazia, agora são parte de uma grande refeição de uma "família escolhida". E, de fato, está refeição torna-se tão famosa que milênios mais tarde, ela é lembrada ritualmente, repetidas vezes por muitas pessoas ao redor do mundo.

Hoje, quando pensamos na atitude cristã adequada daquela pessoa trans, percebemos com toda probabilidade, que uma trans e seu parceiro, alojaram e fizeram parte da última ceia, juntamente com Jesus e seus discípulos. E Jesus não reclamou nem um pouco disso. A maioria das pinturas da Última Ceia, não incluem a Transportadora de cântaro e seu companheiro, mas provavelmente ela estava lá.

Fonte: Estudos do Rev. Cindi Knox (homem trans).