Prédica: A vida de cabeça para baixo



4º Domingo Após Epifania

1 Coríntios 1.18-31 / Mateus 5.1-12

A situação de Jerusalém no século I não era fácil. A tensão contra Roma só aumentava. Inclusive, muitos judeus entravam para o partido dos zelotas com o objetivo de fazer resistência ao Império Romano. Esse caldeirão entornou no ano 66 d.C., quando, após muitas arbitrariedades, o procurador da Judeia exigiu uma soma enorme de dinheiro ao Templo de Jerusalém. Começa a primeira revolta judaica, que chegará ao seu fim com a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C. e a deportação dos judeus sobreviventes para outras cidades do império.

Nessa época, judeus e cristãos eram considerados um único grupo ainda.

Com a destruição do Templo de Jerusalém pelo Império Romano, o grupo dos fariseus ganha ainda mais força no Judaísmo antigo. Como consequência, os judeus expulsam os cristãos das sinagogas. A partir daí, o Cristianismo torna-se uma religião independente do Judaísmo, e não mais uma seita judaica.

Então, expulsos de Jerusalém e da comunidade judaica, esses cristãos de origem judaica precisam se reorganizar. Estão sem terra, sem trabalho, são migrantes em terra estrangeira, pessoas pobres... Nesse contexto é que surge o Evangelho de Mateus. É um texto provavelmente escrito por um judeu escriba que se converteu ao Cristianismo, e tem como destinatários comunidades judeu-cristãs nascidas na Palestina e espalhadas pela Galileia e Síria.

O texto do evangelho de hoje é conhecido como as bem-aventuranças, e faz parte de um discurso maior chamado sermão da montanha.

“O sermão da montanha (5.1 – 7.29) representa, para o evangelista, o ensino de Jesus por excelência [...]. Ele é iniciado com uma série de bem-aventuranças, que desembocam nas duas metáforas sobre o sal e a luz [‘vós sois o sal da terra... vós sois a luz do mundo’, vv. 13-16]. A promessa do reino dos céus e a prática da justiça determinam a essência da existência cristã, são luz diante dos seres humanos (5.16)” (BULL, Klaus-Michael. Panorama do novo testamento: histórica, contexto e teologia. São Leopoldo: Sinodal, 2009, p. 18).

“Na introdução, afirma-se que Jesus se dirige aos discípulos, com passo de fundo de uma grande multidão e num contexto de especial solenidade (5,1). Jesus proclama as exigências vitais do Reino dos céus. Uma palavra, característica do vocabulário de Mateus, repete-se nos momentos-chave, ‘justiça’ (5,6.10.20; 6,1.33): trata-se da perfeição moral que corresponde ao discípulo de Jesus. As bem-aventuranças que encabeçam o discurso, e que são originariamente a proclamação da alegria da chegada do Reino, foram reinterpretadas por Mateus em chave moral. Preocupam-no a perseguição (5,11-12), a manutenção da radicalidade cristã quando o fervor decai (5,21-48; 6,19-7,16), a coerência prática (7,13-27) e as relações com o judaísmo (6,1-18; 5,17-48)” (CARMONA, Antonio Rodríguez & MONASTERIO, Rafael Aguirre. Evangelhos sinóticos e atos dos apóstolos. Introdução aos estudos da bíblia. V. 6. São Paulo: Ave-Maria, 2000, p. 193).

É um texto tão bonito, mas eu acho que não damos muita atenção ao seu conteúdo. Parece que nós o vemos mais como poema do que como texto religioso ou mensagem de Deus.

Numa comunidade de gente sem terra, desempregada, migrante e pobre, as quatro primeiras bem-aventuranças são bem radicais:

v. 3 – Felizes os pobres em espírito (no evangelho de Lucas, só fala em pobres);
v. 4 – Felizes os mansos;
v. 5 – Felizes os aflitos;
v. 6 – Felizes os que tem fome (e Mateus acrescenta a sede de justiça, diferente de Lucas, que só fala de fome).

Essas quatro primeiras bem-aventuranças “declaram que pessoas comumente tidas como infelizes e amaldiçoadas são felizes, pois estão aptas para receber a bênção do Reino” (Bíblia de Jerusalém).

A bíblia é cheia dessas inversões de posições. Na teologia, a gente costuma chamar de inversões escatológicas, pois são inversões relacionadas ao Reino de Deus.

Parece que tudo aquilo que o mundo exalta, a palavra de Deus rejeita. E tudo aquilo que o mundo vê como necessário, importante e glorioso, a bíblia coloca como perda de tempo.

Jesus disse: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos” (Mc 9.35).

Ele também disse: “aquele que no vosso meio for o menor, esse será grande” (Lc 9.48b).

Falando numa parábola sobre os trabalhadores que receberam o mesmo salário mesmo tendo começado a trabalhar em horas diferentes do dia, Jesus diz: “os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos” (Mt 20.16).

Jesus diz: “não vos preocupeis com a vossa vida quanto ao que haveis de comer, nem com o vosso corpo quanto ao que haveis de vestir” (Mt 6.25), mas “buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas” (v. 33).

Existe algo de radical nessa mensagem. Parece que está tudo de cabeça para baixo.

Lembrem que tudo isso se passa no meio de um povo sem terra, sem trabalho, migrantes em terra estrangeira, gente pobre. Ou seja, os valores de Deus parecem pedir uma vida de cabeça para baixo, rejeitar aquilo que o mundo costuma valorizar, e exaltar aqueles valores que o mundo não valoriza.

Afinal de contas, o que prevalece hoje, por exemplo, é a buscar desenfreada pela produção e pelo lucro, é o individualismo, é a competição, é o acúmulo de riqueza... E já há muita coisa que não mais nos sensibiliza. Gente que mora nas ruas ou que passa fome, pessoas sem acesso a uma educação de qualidade ou a serviços de saúde adequados, gente morando em regiões de grande risco... O velho jargão “rouba, mas faz”... Parece que esses são os valores de hoje. Parece que é isso que nós valorizamos.

Mas o reino de Deus é diferente. O reino de Deus nos coloca de cabeça para baixo. Exatamente aquilo que não se valoriza, exatamente aqueles que são rejeitados, tidos como “preguiçosos”, “vagabundos”, “pecadores”, “degenerados”, “inúteis”, são esses que Deus chama, que Deus valoriza, que Deus cuida e que Deus exalta.

Ou, como diz a primeira carta de Paulo aos Coríntios: “aquilo que parece ser loucura de Deus é mais sábio do que a sabedoria humana, e aquilo que parece ser a fraqueza de Deus é mais forte do que a força humana” (1.25). “Para envergonhar os sábios, Deus escolheu aquilo que o mundo acha que é loucura; e, para envergonhar os poderosos, ele escolheu o que o mundo acha fraco. Para destruir o que o mundo pensa que é importante, Deus escolheu aquilo que o mundo despreza, acha humilde e diz que não tem valor” (1.27-28).


Deus quer que tudo fique de cabeça para baixo. O bom mesmo é viver de cabeça para baixo. Amém!
Fonte: leveesoltonomundo.