segunda-feira, 28 de agosto de 2017

GENEALOGIA SUBVERSIVA DE JESUS EM MATEUS

O livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. (Mateus 1:1)

Quando começamos a ler o evangelho escrito por Mateus, é mais que tentador simplesmente ignorarmos a genealogia com a qual ele começa. Afinal, o que realmente precisamos aprender com uma lista de nomes? Mas esta lista é muito mais do que um registro histórico.

De fato, Mateus não parece preocupado com a confiabilidade histórica aqui. Ele pula livremente por gerações, e, em alguns lugares troca até figuras históricas. Isso porque Mateus pretende fazer uma declaração com essa genealogia.

Enquanto Lucas leva a genealogia de Jesus voltando até Adão, estabelecendo a união de Jesus com a humanidade, Mateus começa com Abraão, estabelecendo a união de Jesus com a nação de Israel. E enfatiza Davi, estabelecendo a reivindicação legítima de Jesus ao trono de Israel.

Mas essa dupla enfase de Davi e Abraão também pode ser tomada como uma promessa aos gentios. Frederick Dale Bruner, em seu Mateus: Um Comentário, coloca:
As duas grandes cestas de promessas nas Escrituras hebraicas são a promessa a Davi de um filho que seria rei para sempre (2 Samuel 7; 1 Crônicas 17) e a promessa a Abraão de uma semente que seria benção para todos e todas (Genesis 12; 18; 22), isto é, uma promessa temporal a Davi (para sempre) e uma promessa espacial para Abraão (para todos e todas), uma promessa que satisfaça o anseio de Israel por um reino davídico eterno e o anseio dos gentios por um Salvador Universal. "Filho de Davi" diz: "Israel, aqui está seu messias!", "Filho de Abraão" diz: "Nações, aqui está sua esperança!"
No entanto, Mateus não fala só de reis, patriarcas e outras figuras "respeitáveis". Em uma cultura obcecada com a pureza nacional, ele não fica com os israelitas. Em uma cultura que empurrou as mulheres para margem, ele não fica ao lado dos homens.
Abraão tornou-se pai de Isaque, Isaque pai de Jacó. Jacó tornou-se pai de Judá e seus irmãos. Judá gerou, de Tamar, a Perez e Zerá. Perez gerou Esrom. Esrom tornou-se pai de Arão (Mateus 1:2-3).
Apenas algumas gerações, Mateus aponta para o fato de que "Judá tornou-se o pai de Perez e Zerá por meio de Tamar". Ele poderia ter facilmente ignorado o pouco sobre Tamar, e a genealogia continuaria muito bem, mas ele queria ter certeza que seus leitores lembrassem desse detalhe. Tamar era nora de Judá, mas vestiu-se como prostituta, seduziu o sogro e concebeu Perez e Zerá por esse relacionamento incestuoso (Gênesis 38).
Arão tornou-se pai de Aminadabe, Aminadabe pai de Naassom, Naassom pai de Salmom. E Salmom gerou, de Raabe a Boaz. Boaz gerou de Rute a Obede. Obede tornou-se pai de Jessé. (Mateus 1:4-5).
Mateus sita mais duas mulheres que poderiam facilmente terem sido deixadas de lado. Raabe, prostituta e cananeia. Rute não era prostituta, mas, como salienta Bruner, era "uma Moabita, descendente do lote incestuoso (Gênesis 19) e, portanto, baixa no cadastro social e espiritual de algumas pessoas de Deus protetoras das raças".
Jessé tornou-se o pai do rei Davi. Davi gerou a Salomão da mulher que foi de Urias. (Mateus 1:6).
Aqui, Mateus aponta para outra mulher, mas desta vez ele faz isso indiretamente, e isso também é intencional. Em vez de chamá-la pelo nome, Mateus se refere a Bate-seba como "a mulher que era esposa de Urias", para destacar o pecado de Davi. Davi espiou Bate-Seba enquanto essa tomava banho, ele ordenou que ela fosse trazida a sua presença e a possuiu (e, dado o fato de que ela não tinha o direito de recusar o rei, estou inclinado a chamar isso de estupro), depois finalmente orquestrou o assassinato de seu marido na tentativa de encobrir o seu pecado (2 Samuel 11).

Note que toda essa inclusão anômala na genealogia foi conduzida ou envolvida com Davi, o grande herói de Israel. Mateus está mostrando a sua audiência judaica obcecada com a pureza, que Deus pode trabalhar com qualquer um. Ele não prefere os moralmente retos, aqueles com sangue judeu, nem mesmo homens. Aqui está o que William Barclay diz no The New Daily Study Bible: The Gospel of Matthew:
Se Mateus estivesse tentando procurar nas páginas do Antigo Testamento candidatos mais improváveis, com certeza não poderia ter descoberto quatro ancestrais mais incríveis para Jesus Cristo. Mas, certamente, há algo muito adorável nisso. Aqui, no inicio, Mateus nos mostra em símbolos a essência do evangelho de Deus em Jesus Cristo, pois aqui ele nos mostra as barreiras caindo.
Mateus continua a genealogia até Jesus.
Salomão tornou-se pai de Roboão. Roboão tornou-se pai de Abias. Abias tornou-se pai de Asa. Asa tornou-se pai de Josafá. Josafá tornou-se pai de Jorão. Jorão tornou-se pai de Uzias. Uzias tornou-se pai de Jotão. Jotão tornou-se pai de Acaz. Acaz tornou-se pai de Ezequias. Ezequias tornou-se pai de Manassés. Manassés tornou-se pai de Amom. Amom tornou-se pai de Josias. Josias tornou pai de Jeconias e de seus irmãos, no tempo do exílio para Babilônia (Mateus 1:7-11).
Após o exílio a Babilônia, Jeconias tornou-se pai de Salatiel. Salatiel tornou-se pai de Zorobabel. Zorobabel tornou-se pai de Abiúde. Abiúde tornou-se pai de Eliaquim. Eliaquim tornou-se pai de Azor. Azor tornou-se pai de Sadoque. Sadoque tornou-se pai de Aquim. Aquim tornou-se pai de Eliúde. Eliúde tornou-se pai de Eleazar. Eleazar tornou-se pai de Matã. Matã tornou-se pai de Jacó. Jacó tornou-se pai de José, marido de Maria, de quem Jesus nasceu, que se chama Cristo (Mateus 1:12-16).
Então, todas as gerações de Abraão a Davi são catorze; de Davi ao exílio da Babilônia, catorze; e do exílio para Cristo, catorze (Mateus 1:17).
Estes nomes são muito menos notáveis. A coisa mais interessante sobre eles é como Mateus pula várias gerações para encaixar artificialmente a genealogia em grupos de catorze. Alguns teorizam que isto tem a ver com sete sendo o número da perfeição e, apontam que Jesus marcaria o início do sétimo sete. Outros sugerem que esses grupos serviriam apenas para ajudar na memorização. Suponho que qualquer explicação seja plausível.

 Fonte: www.patheos.com.esus.html