O MASSACRE DOS INOCENTES EM BELÉM: VERDADE OU FICÇÃO?


Incorporada a história de Natal e do nascimento de Jesus nesse mundo, temos uma história sombria de perca de estratégia, lágrimas e dor. Mateus 2:16 tem sido tradicionalmente chamado de "o massacre dos inocentes". Nos é contado sobre a matança de todos os meninos de 2 anos para baixo na região de Belém. O evento é profundamente inquietante, mas é também parte do registro histórico do nascimento de Cristo, ou, não é? Será que, historicamente, isso realmente aconteceu? Ou foi o massacre dos inocentes uma história inventada pelos primeiros cristãos? - E se o evento for historicamente verdadeiro, se o abate público realmente aconteceu? Por que não há outros registros históricos para corroborar com o evento?
Para obter respostas, recorremos ao Dr. Paul Maier, historiador amplamente respeitado, que, até sua aposentadoria serviu como professor de História Antiga na Western Michigan University. Ele é autor de muitos livros de ficção e não-ficção como: In the Fullness of Time: A Historian Looks at Christmas, Easter, and the Early Church, bem como vários livros infantis, tais como: The Very First Christmas.
Esse texto é a transcrição do áudio de uma entrevista concedida pelo Dr. Mayer ao site desiringGod.org:
Gostaria de saber se Mateus 2:16 realmente aconteceu na história? Há um ponto de interrogação sobre este evento. Mas, antes de chegarmos lá, gostaria de saber quem foi essa figura conhecida na História de Natal como Herodes, o Grande?
Podemos nos surpreender ao ouvirmos isso, mas acredite ou não, se você se perguntar qual é a figura do mundo antigo em que encontramos evidências primárias, mais do que qualquer outra, a partir de fontes originais, a resposta não será Jesus, São Paulo, César Augusto, Júlio César ou mesmo Alexandre o Grande. Não. A resposta é Herodes, o Grande. Por quê? Porque Josefo conta toda a história de Herodes, o Grande, em dois rolos de livro. Que é o material primário, mais do que qualquer outro. E acho que Herodes não merecia.
Ele foi um político notavelmente bem-sucedido por manter a paz entre Roma, e a conquistada Judeia, desde 63 a.C. Agia como governador romano no exterior. Era simplesmente conhecido como um rei cliente, significa que, muitas vezes, ao conquistar uma província, os romanos não queriam enviar um governador. Havia um rei fazendo um bom trabalho e por isso, sim, ele pode ser chamado de rei, mas foi definitivamente deferente a Roma em toda sua administração.
Ele estava no comando e, em 40 a.C. foi premiado com o título de rei. Não chegou a assumir o controle da terra, até que, com a ajuda de Roma, dirigiu alguns adversários fora de Jerusalém e, comandou desde o início de 37 a.C. até sua morte, em 4 d.C.
Na verdade, ele foi incrivelmente bem-sucedido de diversas maneiras. Ele mereceu o título de Herodes, o Grande, se falarmos de suas realizações através de grande parte de sua vida. Foi o único, é claro, que reconstruiu o grande templo de Jerusalém, e que, sozinho, criou uma cidade de Cezaréia na terra santa, onde não havia um bom porto. Fez o porto afundando alguns cascos de navios, em seguida, usou-os como base para a construção de um quebra mar na costa do mar de uma forma retilínea.

Construiu em 12 anos Cesareia, bem como outras cidades. Remodelou toda Jerusalém, além de construir um suntuoso palácio para si mesmo. Construiu um hipódromo (estádio), teatros e assim por diante. Era uma espécie de monarca helenístico. Também construiu sete grandes fortalezas em toda a terra, para servirem de pontos fortes para defesa de sua administração. Um deles, o mais famoso, foi Masada ao longo do canto sudoeste do Mar Morto. Tudo o que ele tocava diplomaticamente parecia se transformar em ouro. Manteve a paz tanto com Jerusalém como Roma, e por isso, nesse sentido, foi muito bem-sucedido.
Sim, politicamente foi bem-sucedido. Mas há um outro lado de Herodes. Explique o lado paranoico de Herodes, que começa a surgir mais tarde em sua vida.
Basicamente, ele foi responsável por muitos problemas dentro de sua casa. Sua casa era uma lata de minhocas, simplesmente porque se casara com 10 esposas e cada uma dessas princesas produziram para ele príncipes que tramavam ser o primeiro na linha de sucessão, mas só poderia haver um número 1. E assim, se não houvesse duas ou três parcelas de efeitos colaterais antes que tomassem seu suco de laranja pela manhã, algo estava errado.

Josefo nos conta apenas uma das coisas horrorosas que aconteciam em sua família, a tentativa de envenenamento de um irmão para com o outro. Assim, Herodes manda matar três de seus próprios filhos por suspeita de traição. Leva a morte sua esposa favorita, Mariamne. Uma princesa Macabéia Asmoniana, que após levá-la a morte, levou também sua mãe-de-lei, devo dizer, uma de suas muitas mães-de-lei. Convidou o sumo sacerdote para um mergulho. Jogaram um jogo muito duro até Herodes afogá-lo. Matou vários tios e um casal de primos. Alguns dizem que ele foi um homem de família real, mas no aspecto negativo.

Por uma questão ou fato, o próprio Augusto, a quem Herodes foi sempre muito deferente, disse: "Eu preferiria ser um porco de Herodes do que ser seu filho". Era um trocadilho duplo. No grego, hus e huios, dava ideia de que, os porcos, pelo menos por lá, não eram abatidos para o consumo humano e, que eles tinham uma chance melhor de vida longa. E assim foi um trocadilho brilhante por parte de Augusto.
Sim. Em algum ponto, no final de sua vida, Herodes conspira para matar um estádio cheio de líderes judeus. O enredo é falho, mas o que isso revela sobre ele?
Bem, Josefo relata uma coisa bem terrível sobre Herodes, em seus últimos dias. Ele era paranoico, se é que tivesse alguma compreensão da realidade. Por exemplo, ficou muito preocupado que ninguém lamentasse sua morte. O que deixa nítido o quão preciso ele era mortal. Eles preparavam uma festa geral. E ninguém gosta de morrer sabendo que vão dançar em seu túmulo. E assim, ele queria dar às pessoas um motivo para chorar.

Em 4 a.C. ele está em seu palácio de inverno em Jericó. Único lugar na terra santa que não neva ou fica frio no inverno. É 1200 pés abaixo do nível do mar. Ele estava morrendo. Tenta todos os remédios do mundo para parar a enxurrada de doenças que estavam sobre ele. Foi até para as fontes termais no canto nordeste do mar morto. Mas nem isso o curou.

Então, volta à seu palácio de inverno e convida sua irmã Salomé e diz: "Eu quero que você traga todos os líderes judeus da terra e aprisione-os no hipódromo logo abaixo do palácio. E assim, ela o fez e, em seguida, disse: "Irmão, por que estou fazendo isso?". Herodes diz: "Bem, sei que quando eu morrer os judeus vão se alegrar. Então, quero dar-lhes motivos para chorar". Ele queria todos os líderes executados no hipódromo de modo que haveria milhares de famílias chorando no momento da morte de Herodes, o Grande. Esse é o tipo de homem doce que poderia ter matado bebês em Belém? Sim, acho que sim.
Sim, certamente muito bondoso. Falando em Mateus 2, a Bíblia registra a cena da paranoia de Herodes no final de sua vida. Os sábios o alertam para o nascimento de um novo rei em Belém. Ele queria saber onde, para que pudesse erradicar o novo rival. Os magos sabiamente não retornaram. Herodes em seguida, responde abatendo todos os meninos de dois anos para baixo em Belém. Josefo escreve sobre Herodes, mas não faz nenhuma menção sobre isso em "toda região". Na verdade, não há nenhuma evidência extra bíblica de que este abate tenha acontecido. Como você responde?
Não, isso é interessante. Josefo não menciona. E, portanto, um monte de críticos bíblicos ataca esse aspecto da natividade e dizem, portanto, isso não aconteceu. Agora por favor, entendam que esse argumento é a partir do silêncio e que essa, é a forma mais fraca de argumentação que se possa usar. Como dizemos na profissão, ausência de evidência não é evidência de ausência.

Neste caso, uma ou duas coisas podem ter acontecido. Josefo deve ter ouvido falar sobre isso, mas não quis usar, porque não existia uma centena de bebês mortos, mas apenas cerca de 12, ou, por uma questão de fato, 12 ou 15. A mortalidade infantil no mundo antigo era tão grande que, de tal maneira esta não era de impressionar muito o leitor, acredite ou não. Acho que Josefo escolheu dentre as duas histórias sobre o tempo de pouco antes da morte de Herodes, a história sobre o abate de centenas de líderes judeus.

Ou ele pode não ter ouvido falar sobre isso. Mas uma vez, simplesmente porque a pequena Belém não importava muito, uma aldeia de cerca de 1500 habitantes. Em meu atual estudo, Belém na época não teria tido mais do que cerca de duas dezenas de bebês de dois anos para baixo, metade deles do sexo feminino. E por isso não era um grande negócio, e, acho que por esse motivo Josefo, ou nuca ouviu falar sobre isso ou não sentia que fosse importante o suficiente para ser registrado. Portanto, isto não vai contra a versão de Mateus, por qualquer meio.

Na verdade, estava discutindo uma vez, há anos atrás, sobre o massacre infantil com o professor Wagner College, em Nova York, que alegava que tudo isso era ficção, que certamente um massacre de centenas de bebês do sexo masculino judeus teria chegado ao conhecimento de outros historiadores. Bem, concordo que teria, se tivesse havido centenas de massacrados. Mas isso é ridículo. Uma pequena aldeia sem tamanho, ter centenas de bebês do sexo masculino de dois anos para baixo? Esse não poderia ser o caso.

E "todos os seus contornos". Bem, veja, Jerusalém é de cinco milhas de distância, certo? Então, isso incluiria Jerusalém, bem, se tomarmos literalmente, "todos os seus contornos". Estamos a falar de Belém e, provavelmente, uma meia milha em torno, quando falamos sobre os arredores de Belém.
Fascinante, e certamente não menos uma real tragédia. Então, finalmente, como um historiador, em sua mente, não há qualquer razão para duvidar da historicidade da matança dos inocentes?
Não vejo um pingo de evidência de que a história não possa ter acontecido. E, portanto, mais uma vez, não há nenhuma razão para duvidar da história. Para ter certeza, Lucas nunca ouviu falar sobre isso. Lembre-se que Mateus e Lucas não copiaram um do outro, quando se trata de Natividade. E isso é bom, porque desta forma, eles podem ter diferentes ângulos. Acho que realmente aconteceu, e lembremo-nos mais uma vez que o primeiro mártir do cristianismo não foi Estevão ou Jesus. Nem mesmo Jesus. O primeiro mártir da Igreja Cristã foi o primeiro bebê a ser morto em Belém, e nós sempre ignoramos isso.