CRISTIANISMO TÓXICO


Vivemos um momento em que autoridades religiosas conclamam pessoas a reagirem a qualquer tipo de fato que julgam ferir a tradicional "família brasileira". Creem que sua autoridade os habilitam a proclamar uma verdade que não tem correspondência com a realidade empírica. Eles não teriam esse poder sem o apoio de uma maciça subcultura cristã, que foi doutrinada para entender a verdade como proclamação autorizada e não como realidade empírica. Pessoas que estão acostumadas a aceitar máximas a priori de suas figuras de autoridades religiosas que deliberadamente se opõem ao consenso geral da ciência e da sociedade civil. Aqui estão cinco fatos particularmente tóxicos que são onipresentes no cristianismo popular brasileiro de hoje:

1. Que a natureza humana é completamente perversa e totalmente indigna de confiança.

O fundamento para uma cultura de fatos fundamentalistas é presumir a corrupção abjeta de todas as fontes possíveis de informações, incluindo suas próprias intuições e observações, exceto na autoridade designada, que geralmente prefigura na liderança maior de sua igreja ou a Bíblia. Nenhuma doutrina cristã tem sido mais distorcida e abusada do que a doutrina do pecado original. Certamente, nascemos em uma ordem social que foi arruinada e corrompida pelo pecado, uma corrupção que nenhum de nós pode evitar. Mas o cristianismo tóxico leva ainda mais longe. Nós não somos apenas pecadores. Somos completamente incapazes de discernir a verdade ou de observar a realidade com precisão, pois "o coração é enganoso e desesperadamente perverso" (Jeremias 17:9). Só podemos confiar nas autoridades ordenadas por Deus para interpretar sua verdade para nós. A Bíblia é oficialmente a autoridade final, mas apenas de acordo com a interpretação correta, filtrada através das lideranças religiosas, que decidem quando e como os mandamentos de Jesus são aplicáveis.

Ironicamente, as pessoas que são treinadas para não confiar nas intuições de seus corações fazem coisas horríveis por acharem que estão sendo obedientes as autoridades ordenadas por Deus. Eles e elas batem em seus filhos para quebrar-lhes a vontade, matam e queimam os corpos de seus filhos gays, pois alguém disse que seu amor precisa ser duro. A antropologia niilista da "depravação total" torna-se a base para iluminação, manipulação e abuso por parte das lideranças, cuja doutrina do pecado é a justificação de seu poder.

2. Que Deus está no controle meticuloso de todos os aspectos do universo.

O Brasil está agora em um curso frenético para destruir nosso planeta, pois os gananciosos executivos, que maximizam o lucro, encontram um parceiro conveniente nas massas que acreditam que Deus não poderia permitir que a mudança climática aconteça. É um artigo de fé que os níveis do oceano não podem subir devido a causas humanas, pois Deus é aquele que diz às ondas: "Até aqui virás, e não mais adiante" (Jó 38:11). O paradoxo de nossa doutrina da soberania de Deus é que nossa própria soberania é que realmente está em questão. Aqueles que precisam de um Deus cuja relação com a criação pode ser explicada e categorizada exaustivamente, possuem um Deus que se submete à soberania de sua teologia. O Deus verdadeiramente soberano é aquele cujo envolvimento em nosso mundo permanece um mistério para nós. Qualquer coisa que possamos discutir sobre a providência e soberania de Deus, como a destruição da atmosfera com nossa poluição, não devemos esperar dEle a salvação.

3. Que a principal questão é onde você irá no pós-morte.

Se não é niilista o suficiente acreditar que suas observações e instruções não podem ser confiáveis e que não se pode danificar a criação, pois Deus está no controle, então, podemos acrescentar a isso a crença de que todo o nosso mundo é uma passagem irrelevante para o Vida pós morte, que é o que realmente importa. Sem mencionar o fato de que Deus quer torturar a grande maioria das pessoas neste planeta, mandando-as a um inferno eterno. Isso deixa muito pouco incentivo para se fazer qualquer coisa que melhore este mundo. Como o grande evangelista Dwight Moody disse: "Eu vejo este mundo como um navio naufragado. Deus me deu um bote salva vidas e disse: 'Moody, salve tudo o que puder'". Portanto, você acaba com uma política niilista sem nenhum interesse pelo bem comum.

4. Que a justiça é estritamente punitiva.

Nunca esquecerei de uma conversa que tive com um pastor Presbiteriano no Seminário. Eu disse a ele que minha fé era a base de minha busca pela justiça. Ele respondeu: "Se Deus nos desse a justiça que merecemos, estaríamos todos no inferno". De fato, nosso sistema de justiça criminal, que foi fortemente moldado pelo moralismo cristão tóxico, não tem nada a ver com fazer as coisas direito para as Vítimas de um crime; ela é estritamente sobre punir criminosos. Quando nos aproximamos da Bíblia presumindo encontrar justiça como punição, distorcemos a cruz de Jesus para significá-la que a justiça retributiva é a ordem dada pelo Deus do universo. A ironia é que se a cruz de Jesus, de fato, fornece a substituição penal como uma dimensão de sua expiação, isso significa que a cruz se esgota e, portanto, anula a justiça retributiva para sempre. Caso contrário, Jesus realmente não pagou todo preço. Assim, aqueles que definem a justiça como castigo, revelam que ainda não aceitaram o pagamento de Jesus pelos pecados do mundo. A verdadeira justiça bíblica significa a restauração do shalom, a paz onde todos e todas permanecem e contribuem. Um relato restaurador da justiça reconhece a cruz e a ressurreição de Jesus como provedora, tanto da reivindicação das vítimas quanto da redenção de seus opressores.

5. Que a maior prioridade de Deus é o cumprimento das normas de gênero.

Existe um maior obstáculo para o evangelismo cristão do que a obsessão de ter a certeza de que as pessoas que nascem com pênis usam azul toda sua vida e só se casam com as pessoas que nascem com vaginas e que usam rosa toda sua vida? Quantos milhões de jovens e adultos perderam totalmente o conceito de santidade sexual porque os cristãos jogaram tudo em cima da preocupação LGBT? A obsessão com as normas de gênero é o maior desastre do cristianismo contemporâneo, e contradiz completamente as preocupações subjacentes de Jesus e Paulo com o fruto espiritual da santidade. O que fazemos com os nossos corpos importa, não por causa de uma conformidade de gênero decretada, mas porque somos templo, onde a beleza de Deus pode ser glorificada. É difícil não concluir que os LGBT estão sendo maltratados pelo cristianismo tóxico como uma tática para não os submeter ao discipulado de Jesus em todos os seus outros aspectos da vida em que a maioria dos cristãos brilham.

Se você quiser desintoxicar seu cristianismo nesta Quaresma, venha participar de nosso retiro espiritual da semana santa.

Fonte: www.patheos.com.