PORQUE DEUS AMOU TANTO O COSMOS?

Quando Cristo se tornou humano, ele também se tornou parte do vasto corpo do cosmo.


Em nossos dias, as preocupações sobre ecologia estão sumindo. As alterações climáticas, a poluição e a extinção de espécies vegetais e animais nos fazem questionar o tratamento humano nocivo do mundo natural.

Uma resposta religiosa é focar na doutrina da criação. Visto que o mundo inteiro foi criado por Deus, que enxergou que tudo era "muito bom" (Gênesis 1:31). A natureza, o céu, o mar, a terra e as criaturas que nela residem, tem grande valor aos olhos de Deus. Os seres humanos, criados a imagem e semelhança divina, fazem parte desta comunidade de vida. Nós fomos colocados no jardim para cultivar e cuidar dele (Gênesis 2:15), não destruí-lo.

Para os cristãos, Jesus Cristo é o centro da fé, o fundamento da crença e prática da igreja vivendo em seu Espirito. Se o amor por ele puder ser conectado pelo o amor com a natureza, resultará em um forte impulso para o cuidado ecológico, além da doutrina da criação. Jesus tem alguma coisa a ver com o cosmos? Explorar sua encarnação, ministério, morte e ressurreição com esta questão em mente produz algumas respostas inspiradoras e desafiadoras.

Feito de poeira estrelar

No cerne da fé está a verdade de que em Jesus Cristo, Deus se tornou um ser humano para redimir o mundo. O evangelho do Natal proclama isso muito bem: "O Verbo se fez carne e habitou entre nós" (João 1:14). A Palavra é a própria auto-comunicação de Deus, proferida desde a eternidade. Carne significa o que é material, perecível, vulnerável, finito, o oposto ao que é divino.

Aqui está uma declaração muito radical: Deus se tornou material. O Natal celebra um presente radical: O Deus completamente santo uni-se pessoalmente ao nosso mundo de pecado e sofrimento, para o salvar. Isso é conhecido como a doutrina da encarnação, do latim "em carne".

As descobertas científicas deixaram nítido que a carne humana é parte evolutiva da vida neste planeta, que por sua vez é parte do sistema solar, que por sua vez veio a ser parte de uma longa história cósmica. Essa consciência de nossa longa história natural fornece uma nova visão do significado cósmico da "carne" que a Palavra se tornou.

A teoria prevalecente na ciência de hoje sustenta que tudo que existe vem de um único ardente momento. Datado há 13,7 bilhões de anos, quando o universo começou com uma única partícula que explodiu, chamada inelegantemente de Big Bang, uma efusão de matéria e energia que ainda está acontecendo.

À medida que este material se expandia, sua irregularidade permitia que as galáxias se formassem à medida que a força da gravidade puxava as partículas e sua densa fricção acendia as estrelas.

Aproximadamente 5 bilhões de anos atrás, algumas dessas estrelas envelhecidas morreram. Suas grandes e novas explosões, transformavam o hidrogênio básico em elementos mais complexos. Fora dessas nuvens de poeira e gás, algum material reformado e re-inflamado se tornou nosso sol, uma estrela de segunda geração. Alguns pedaços pequenos demais para pegar fogo, coalesceram, formando os planetas de nosso sistema solar, incluindo a Terra.

Três bilhões e meio de anos atrás, neste planeta, ocorreu outra mudança importante, quando as moléculas coalesceram para formar células vivas. Durante um período Éon de tempo as células irromperam em criaturas que "se tornaram frutíferas e se multiplicaram": o advento da vida.

Para fora do Big Bang, as estrelas; Fora da poeira das estrelas, a Terra; Fora da matéria da Terra, a vida. Fora da vida e da morte de criaturas unicelulares, uma maré avança: trilobites, peixes, anfíbios, insetos, flores, pássaros, répteis e mamíferos, entre os quais emergiu os seres humanos, mamíferos com cérebros tão complexos que experimentaram a autoconsciência, inteligência e liberdade.

De acordo com essa história científica, tudo está ligado a tudo. O cientista e teólogo britânico Arthur Peacocke explica: "Todo átomo de ferro no nosso sangue não estaria lá se não tivesse sido produzido em alguma explosão galática há bilhões de anos e, eventualmente condensado para formar o ferro na crosta da Terra, da qual emergimos".

Literalmente os seres humanos são feitos de poeira de estrelas.

Além disso, compartilhamos com todas as outras criaturas vivas em nosso planeta, uma ancestralidade genética comum, Bactérias, vermes, pinheiros, mirtilos, cavalos, grandes baleias cinzentas, todos somos parentes genéticos na grande comunidade da vida.

O pensamento e o amor humano são distintos, mas não são algo injetado no universo. Pelo contrário, eles são o florescimento em nós de energias profundamente cósmicas. Na espécie humana, a natureza torna-se consciente de si mesma e aberta a realização na graça e na glória.

De acordo com o filósofo judeu Abraham Heschel, isso torna os seres humanos os "cantores do universo", capazes de cantar louvores e agradecimentos em nome de todos os outros.

Compreender a espécie humana como uma parte intrínseca da matéria planetária e cósmica tem implicações de longo alcance para o significado da encarnação. Nessa perspectiva, a carne humana que a palavra se tornou faz parte do vasto corpo do cosmo.

Os teólogos começaram a usar a expressão "encarnação profunda", inventada pelo teólogo dinamarquês Niels Gregersen, para expressar esse radical alcance divino no próprio tecido da existência biológica e no sistema mais amplo da natureza.

Como todos os seres humanos, Jesus carregou dentro de si o que o padre jesuíta David Toolan chamou de "assinatura das supernovas, da geologia e da história da vida da Terra". A estrutura genética de sua células o fez parte de toda a comunidade da vida, vinda de um antepassado comum dos mares antigos. A carne, que a Palavra assim se tronou, vai além de Jesus e de outros seres humanos para abranger todo o mundo biológico das criaturas vivas e o pó cósmico do qual somos compostos.

Essa maneira "profunda" de refletir sobre a encarnação fornece uma visão importante. Ao tornar-se carne, a Palavra de Deus confere bençãos sobre toda a realidade terrena em sua dimensão material, e além disso, sobre o cosmos em que a Terra existe. Em vez de ser uma bactéria que nos distancia do divino, este mundo material torna-se um sacramento que pode revelar a presença divina. Em lugar do desprezo espiritual pelo mundo, nos aliamos com o Deus vivo amando todo o mundo material, parte da carne que a Palavra se tornou.

Jesus da Terra

Para alguém que foi reverenciado como um salvador espiritual, o ministério de Jesus mostrou uma profunda conexão com a corporeidade e com a Terra. Pregando dentro de uma cultura agrícola, suas parábolas são temperadas com referências a sementes e colheitas, vinhas e ervas daninhas, chuva e pôr do sol, ovelhas e aves de nidificação. Ele não exitou em falar com emoção da roupa de Deus, as flores selvagens, com beleza. Ele até falou da preocupação de seu querido Pai por um pardal morto que caí no chão (Mateus 10:29).

As ações de Jesus também eram extraordinariamente físicas. Suas curas colocavam o sofrimento corporal das pessoas no centro da atenção. Ele usou a própria saliva e o toque quente para ministrar a saúde. E como Ele alimentava as pessoas? Grandes números em encostas e pequenos grupos em casas, onde era copioso anfitrião e companheiro de mesa, todos conheciam sua preocupação em satisfazer a fome corporal das pessoas!

O centro da pregação e das ações de Jesus era a certeza de que o reino de Deus estava próximo. Este rico símbolo judaico aponta para o momento em que Deus finalmente reinará sobre os poderes das trevas, de modo que a vontade divina seja feita na terra como no céu. O ministério de Jesus revela concretamente o que isso significa: nada menos que a salvação, o fim do pecado, do sofrimento e da morte, o florescimento de todas as criaturas.

Isso inclui sua dimensão física, pois, como mostram as histórias do evangelho, os corpos são importantes para Deus, todos os corpos, não só os belos e cheios de vida, mas também os danificados, violados, famintos e mortos. E não apenas os da humanidade, mas também os do resto da criação.

O teólogo ecologista Sallie McFague resume o que o ministério de Cristo revelado em um axioma: "Amor libertador, curativo e inclusivo é o significado de tudo isso". O amor, como Jesus o encarnou, é o significado codificado no coração do próprio universo. A intenção original e final do amor de Deus é a plenitude da vida, não apenas para uma fatia do mundo, mas para todos e todas, incluindo os pobres seres humanos e todas as criaturas vivas.

Para os discípulos que seguem o seu "Caminho", o ministério de jesus apoia todos os corpos da criação, não apenas aqueles que tem sucesso em seu tempo, mas também aqueles que são menosprezados, julgados sem importância ou inaceitáveis, quebrados ou empurrados para a extinção. Com esta convicção, as pessoas podem arriscar a lutar pela vida em um mundo onde a morte devido a pobreza arraigada, injustiça violenta, insensibilidade ecológica e avareza são uma possibilidade diária para milhões.

Esta perspectiva traz justiça social e cuidados ecológicos em um abraço apertado.

Cristo como o "Primeiro Tomate"

O fim da vida de Jesus e sua ressurreição fornecem mais um capítulo surpreendente na narrativa da imensidão de Deus na matéria. Não há exceção a única regra que maltrata toda a natureza, Jesus morreu, sua vida sangra para fora em um espasmo de violência.

A teologia contemporânea enfatiza que o sofrimentos de Cristo na Sexta-feira santa, revela a compaixão de Deus para com todos e todas que sofrem ao longo da história. As cruzes continuam sendo montadas no mundo, conectando a raça humana ao fio vermelho da agonia. Em Cristo, Deus simpatiza e deseja apaixonadamente tirar todas as pessoas crucificadas da cruz.

Esta solidariedade misericordiosa não se limita apenas aos seres humanos. Mas também a natureza que sofre: "Toda a criação está em dores de parto até agora" (Romanos 8:22). O sofrimento de Cristo nos leva a confiar que os intermináveis milênios de sofrimento e de morte envolvidos no processo de evolução, são acompanhados pelo amor divino. Nenhum pardal cai no chão sem ser observado pela compaixão de Deus.

A fé cristã proclama que a cruz não é a palavra final. Ela floresce na árvore da vida: "Ele ressuscitou, Aleluia!".

Esta Boa Notícia da Páscoa sempre envolveu corporalidade. A fé na ressurreição de Jesus Cristo afirma que não é só a alma que é salva na morte, mas todo o seu corpo, o seu eu. Começando em um corpo humilhado, posto em um túmulo, a história da ressurreição fala do poder criativo do amor divino triunfando sobre o poder crucificante do mal e o poder sepulcral da morte.

O que isso significa seriamente de concreto não é imaginável: "Nós agora vemos em um espelho, apenas vagamente" (1 Coríntios 13:12). No entanto, o túmulo vazio representa um sinal histórico de que o amor de Deus é mais forte do que a morte, abraçando a própria existência bibliográfica e resgatando-a da aniquilação.

A alegria exuberante que brota na Páscoa vem da compreensão de que este destino não é só para Jesus, mas para toda raça humana. O resultado de sua morte assinala que um futuro abençoado aguarda todos e todas que passam pelo abalo da morte, ou seja, todo o mundo.

Em uma ótima metáfora, São Paulo capta isso sucintamente: Cristo é "as primícias dos que dormem" (1 Coríntios 15:20). Se você já colheu tomates, sabe a alegria de escolher o primeiro e mais suculento. Mas há mais amadurecimento na videira, e seu dia de colheita chegará. Cristo, o primeiro fruto que adormeceu, é como aquele primeiro tomate!

Ressuscitado dos mortos, Cristo deixa nítido que a salvação não significa a fuga do espírito humano da matéria. Em vez disso, nosso futuro trará a transformação de todo o nosso corpo relacional, pessoa, poeira e respiração, juntos na glória de Deus.

A consciência ecológica de nossa história terrestre e cósmica nos leva a entender essa presença para além de seu alcance humano, para incluir um futuro para todo o mundo natural.

Como Jesus de Nazaré era composto de material de estrelas e coisas terrenas, e como seu corpo existia em uma rede de relações que se estendia a todo o universo físico, sua ressurreição sinalizava o início da redenção, não apenas dos seres humanos, mas de toda a criação, todo o mundo natural, toda a matéria em suas intermináveis permutações.

Um hino cristão primitivo elogiou o Cristo crucificado como "o primogênito dentre os mortos" também declarou, com razão, que Ele é "o primogênito de toda a criação", incluindo as coisas visíveis e invisíveis (Colossenses 1:15-20). "Na ressurreição de Cristo, a própria terra surgiu", declarou Santo Ambrósio, bispo de Milão do século IV.

A liturgia católica da Vigília Pascal simboliza lindamente isso com símbolos cósmicos e terrenos de luz e escuridão, novo fogo, flores e verduras, água e óleo, pão e vinho. O hino Exsultet, cantado apenas nesta noite, grita: "Exulta toda criação, em volta do trono de Deus", pois Jesus Cristo ressuscitou!

O hino continua com um apelo ao nosso planeta:
Rejubile também a terra, inundada por tão grande claridade. 
Porque a luz de Cristo, o Rei eterno 
Dissipa as trevas de todo o mundo!
Na verdade, o Cristo ressuscitado encarna a esperança final de toda a criação.

Uma vez, quando o famoso naturalista norte-americano John Muir encontrou um urso em Yosemite, escreveu uma crítica mordaz em seu diário contra as pessoas religiosas que não deixam espaço no céu para criaturas tao nobres: "Não contentes em tomar toda a Terra, acham que são os únicos que possuem os tipos certos de almas para as quais esse imponderável império foi planejado, o país celestial". Ao contrário, acreditava Muir, a "caridade de Deus é suficientemente ampla para os ursos".

À luz do Cristo ressuscitado, a esperança da salvação para todos os seres humanos pecaminosos e mortais, se expande para se tornar uma esperança cósmica, uma esperança compartilhada. O amor pela Terra e por todas as suas criaturas fluem como uma resposta.

Todas as mãos no convés

A fé em Jesus Cristo pode fornecer recursos ricos para uma ética ecológica que é criticamente necessária neste mundo de angústia, a Terra. Em união com o amor que cria e abraça toda realidade é vislumbrada concretamente na encarnação, ministério, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Precisamos moldar nossas vidas no conhecimento de que a natureza está fundamentada no sagrado. A salvação não abrange apenas a vida humana, mas toda a vida e todo o cosmos em si.

Durante bilhões de anos, o universo teve o caráter de uma aventura, descobrindo e trazendo coisas novas, nunca antes vistas. E o processo ainda não terminou. A ação humana que aborta as possibilidades da natureza causando dano aos ecossistemas e outras criaturas é nada menos que uma violação profundamente pecaminosa contra a vida. Ela atropela a promessa da natureza, matando o que ainda pode ser. Ao faze-lo, frustamos a própria visão criativa de Deus para o futuro deste universo.

À luz da fé cristã, escreveu o Papa João Paulo II, devemos moldar nossa vida moral de modo que "o respeito pela vida e a dignidade humana se estenda também ao resto da criação".

O filósofo e paleontólogo francês jesuíta Pierre Teilhard de Chardin capturou nosso momento de crise em uma parábola bem conhecida. A raça humana esta em um navio movendo-se através de um mar inexplorado. Durante milênios, os seres humanos vieram no porão do navio, desconhecendo os maiores processos evolutivos que moviam o barco. Agora os passageiros vieram à bordo. No convés veem um leme, instrumentos de navegação e cartas. Eles cruzam um limiar.

Em um grau importante, os seres humanos agora são capazes de especular sobre a direção do processo evolutivo, e, até mesmo conduzir o navio em direção a um objetivo consciente. Eles vão agir com responsabilidade e orientar em uma boa direção ecológica? Ou vão bater o navio nas rochas?

A crença em Jesus Cristo tem muito a contribuir para um resultado florescente, se ela, também vier para o convés. Ela é um dom dado porque "Deus amou o mundo" (João 3:16). A palavra grega que originalmente é traduzida para "mundo" é kosmos.

Sim, Deus amou tanto o universo inteiro, florescendo, zumbindo, evoluindo, gemendo, que a vida, morte e ressurreição de Jesus conecta-o para sempre com a promessa redentora.

Este artigo foi publicado na edição de abril de 2010 da US Catholic (Vol. 75, Nº 4, páginas 18-21).

Fonte: www.uscatholic.org.