terça-feira, 5 de maio de 2015

QUER A GERAÇÃO DESTE MILÊNIO DE VOLTA AOS BANCOS? PARE DE TENTAR FAZER UMA IGREJA "COOL".


O baixo reverberava através do assoalho do auditório, o líder barbudo que ministra a adoração faz uma pausa e convida a congregação, banhada pela luz de dois ecrãs gigantes, para twittar #Jesusévida. O cheiro de café fresco com torradas é o lobby para lembrar onde você pode encomendar e comprar canecas e souvenirs que ostentam o elegante logotipo da igreja. As cadeiras são confortáveis e a música soa como algo vindo do topo das paradas. No final do serviço, alguém vai ganhar um presente de Deus.
Isso, na opinião de muitos líderes religiosos é a igreja do novo milênio. E ainda há os pregadores(as) maravilha. A frequência à igreja tem despencado entre os jovens adultos. Nos Estados Unidos, 59 por cento das pessoas com idades entre 18 a 29 oriundos de uma criação cristão tem, em algum momento, desistido. De acordo com o Fórum Pew sobre Religião e Vida Pública, aqueles nascidos em torno do ano de 2000, afirmam não ter filiação religiosa, fazendo dessa, uma geração significativamente mais desconectada da fé do que os membros de gerações anteriores.
Em resposta a isso, muitas igrejas têm procurado atrair essa geração com outro tipo de estilo: bandas mais vibrantes, objetos abençoados, programações mais ousadas e tecnologias impressionantes. No entanto, embora estas ideias não sejam inerentemente más e até, em alguns casos possa ser eficaz, não são em si a chave para trazer a geração deste milênio de volta a Deus de uma forma duradoura e significativa. Os jovens não querem simplesmente um show melhor. E tentar ser legal pode fazer as coisas piores.
É muito comum ouvir palavras como "quota de mercado" e "marca" nas reuniões de pessoas da igreja nos dias de hoje como em qualquer escritório corporativo. Mega igrejas nos grandes centros têm departamentos inteiros dedicados à comercialização e a sedução de novos membros. Procuram rotineiramente os melhores logotipos e sites da web que oferecem consultoria estratégica para as organizações.
Cada vez mais, as igrejas oferecem uma série de sermões no iTunes e cultos com estilo de show com nomes como "videira" ou "Reunir". Grupos de igrejas americanas foram notícia nos últimos anos por sortear computadores, tablets, televisores e até automóveis na Páscoa. Ainda assim, a frequência entre os jovens continua pequena.

[Como tirar Cristo do cristianismo]
Recente pesquisa do Grupo Barna e da Rede de Conhecimento Cornerstone constatou que 67 por cento da geração deste milênio prefere uma igreja "clássica" a uma "badalada", e 77 por cento escolheria um "santuário" ao invés de um "auditório". Enquanto ainda nos aquecemos com a palavra "tradicional" (apenas 40 por cento é a favor da palavra "moderna"), a geração deste milênio apresenta uma aversão crescente às comunidades religiosas, de mente fechada, exclusivas, disfarçadas em novos lugares. Para uma geração bombardeada com publicidade e arremessada as vendas, qualquer esforço propagandístico da igreja pode realmente sair pela culatra, especialmente quando os jovens sentem que há mais ênfase no marketing Jesus do que em realmente seguí-Lo. A geração deste milênio "não esta desiludida com a tradição; esta frustrada com as manchas e as expressões rasas da religião", argumenta David Kinnaman, que entrevistou centenas deles para o Grupo Barna e compilou sua pesquisa em "You Lost Me: Why Young Christians Are Leaving Church...and Rethinking Faith".
Sobre isso, o blogueiro Amy Peterson diz: "Não quero um serviço que seja sensacional ou altivo, pois posso ter isso em qualquer outro lugar. Na igreja, não quero ser entretido. Não quero ser o alvo do marketing de ninguém. Quero ser convidado a participar da vida de uma comunidade antiga de olho no futuro".
O blogueiro Ben Irwin diz: "Quando uma igreja me diz como eu devo me sentir (Aplauda Jesus se você está animado), isso cheira a inautenticidade. Às vezes não sinto vontade de bater palmas. Às vezes preciso adorar no meio de meu quebrantamento e confusão. Não na vontade dela e certamente não na negação dela".
Quando saí da igreja aos 29 anos, cheio de dúvida e desilusão, não estava à procura de um cristianismo mais bem produzido. Estava procurando por um cristianismo verdadeiro, um cristianismo mais autêntico: Não gostava de como as pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais eram tratadas pela minha comunidade evangélica de fé. Tinha dúvidas sobre a ciência e a fé, a interpretação bíblica e a teologia. Sentia-me sozinho em minhas dúvidas. E, ao contrário da crença popular, as máquinas de neblina e espetáculos de luzes dessas conferências evangélicas não faziam as coisas melhorarem para mim. Elas faziam todo meu esforço parecer raso, forçado e falso.
Enquanto não houver duas histórias de fé, serei exatamente o mesmo, e creio não ser o único deste milênio cuja fé não pode ser salva por uma demão de um verniz estiloso. De acordo com o Grupo Barna, entre os jovens que não frequentam à igreja, 87 por cento diz que veem os cristãos como julgadores e 85 por cento como hipócritas. Um semelhante estudo descobriu que "apenas 8% afirma que não vão à igreja por ser" antiquada, "extraindo pela raiz a noção de que todas as igrejas para serem pertencentes a este milênio precisam fazer uma adoração 'mais espetacular'".
Em outras palavras, uma igreja pode ter um logotipo e um site elegante, mas se é crítica e exclusiva, falha no mostrar o amor de Jesus a todos(as), e, essa geração percebe. Nossa razão de existir tem muito mais a ver com questões de fundo da vida, fé e comunidade do que com estilo e imagem. Nós não somos tão vazios quanto se pode pensar.
Os jovens estão à procura de congregações que autenticamente praticam os ensinamentos de Jesus de uma forma aberta e inclusiva, e, a boa notícia é a igreja já sabe como fazer isso. O truque não é fazer uma igreja legal; é manter o culto estranho.
Você pode obter uma xícara de café com seus amigos em qualquer lugar, mas a igreja é o único lugar que se pode sentar ao lado de seus irmãos para louvar a esse Deus tão amoroso. Você pode se deslumbrar com um show de luzes em um concerto em qualquer fim de semana, mas a igreja é o único lugar que preenche um santuário com velas e hinos na véspera de Natal. Você pode comprar todos os tipos de coisas em uma loja on-line, mas a igreja é o único lugar onde você pode ser chamado como um filho amado de Deus apenas com um mergulho na água fria. Você pode compartilhar comida com os famintos em qualquer abrigo, mas apenas a igreja ensina que uma refeição compartilhada nos traz para a própria presença de Deus.
O que finalmente me trouxe de volta depois de anos de fuga, não foi o jogo de luzes ou a vassoura abençoada; foram os sacramentos. O batismo, a confissão, a comunhão, a pregação a Palavra e a unção dos enfermos - você os conhece, aqueles rituais e tradições estranhas que os cristãs vem praticando nos últimos 2.000 anos. Os sacramentos são o que fazem a igreja relevante, não importa a cultura ou época. Eles não precisam ser reembalados ou remasterizados; eles só precisam ser praticados, oferecidos e explicados no contexto de uma comunidade amorosa, autêntica e inclusiva.
Minha busca me levou a uma Igreja onde toda semana me encontro, aos 33 anos, ajoelhado ao lado de uma senhora de cabelos grisalhos à minha esquerda e um casal gay à minha direita, onde confesso meus pecados e recito minha oração. Ninguém está tentando me vender alguma coisa. Ninguém está tentando desesperadamente fazer um Evangelho relevante ou legal. Estão apenas junto a mim proclamando o grande mistério da fé - de que Cristo morreu, ressuscitou e virá novamente - e que, apesar de minhas dúvidas persistentes e instintivo cinismo, ainda acredito nisso todos os meus dias.
Não é necessário ser de uma grande igreja para praticar o cristianismo sacramental. Mesmo nas comunidades cristãs que não usam linguagem sacramental para descrever suas atividades, você vê pessoas batizando pecadores, compartilhando refeições, confessando pecados e ajudando uns aos outros em tempos difíceis. Os serviços com telas grandes e bandas profissionais também podem oferecê-los.
Mas acredito que os sacramentos são mais poderosos quando são estendidos não apenas para religiosos e privilegiados, mas para os pobres, marginalizados, solitários e todos os outros que são deixados de fora. Esta é a inclusão de tantos milênios a muito tempo nas igrejas, e foi a inclusividade que, eventualmente, chamou-me de volta a Igreja cujas portas grandes estão abertas a todos - conservadores, liberais, ricos, pobres, homossexuais, bissexuais, heterossexuais e até mesmo aqueles duvidam como eu.
A frequência à igreja pode ser pouca, mas Deus pode sobreviver na era da Internet. Afinal, Ele sabe uma coisa ou duas sobre ressurreição.

Versão do texto de John Jay Cubuay para The Washington Post