quarta-feira, 15 de junho de 2016

É DEUS CONTRA A HEGEMONIA?

Provavelmente não exista uma passagem mais difícil para os literalistas bíblicos do que a história da Torre de Babel em Gênesis 11. Como exatamente se constrói uma torre que chegue ao céu no mundo real, onde a física e a atmosfera existem? E que tipo de Deus soberano iria esmagar esse projeto por medo de "não haver restrições para tudo o que eles intentassem fazer" (v.6)? O texto não dá nenhum tipo de razão moral para que possamos considerar errada a construção da torre, e, para que os criadores de vídeos bíblicos infantis preencham um monte de espaços em branco. Mas, podemos considerar que esta história, incluídas nas leituras da semana de pentecostes, traga a realidade de que Deus odeie a hegemonia.

Talvez a ação de Deus contra a Torre de Babel seja, supostamente para descrever uma propensão divina para a rebentar a confiança. As pessoas que construíram Babel, tinham uma uniformidade na linguagem (todos falavam a mesma língua), no método (eles usavam os mesmos tamanhos de tijolos), e na finalidade (queriam "fazer seus nomes"). Babel pode ser considerada, em certo sentido, o primeiro monopólio. Como muitos outros projetos de menores de construção foram engolidos por Babel. Sob a hegemonia, as pessoas se fixam na visão do líder ou coagulam da vontade da principal corrente.

O discurso encontrado na comunidade durante o Pentecostes é inerentemente polifônico. Não há uma visão, mas, várias visões.

Então, o que há de errado com a uniformidade? O que há de errado em encontrar o caminho certo e, em seguida, fazer todos/todas os/as outros/outras terem uma conformidade com isso? Esta parece ser a busca zelosa de um certo tipo de cristianismo evangélico para os quais a ortodoxia implica em uma exatidão de mesmice. Seria um problema se apenas estivéssemos em uma conformidade de exatidão errada? E, se fosse possível criar uma hegemonia com uma perfeita exatidão?

A melhor resposta que podemos encontrar é na história de Pentecostes. O Espírito Santo traduzindo as "grandezas do poder" de Deus em vários idiomas diferentes, em vez de dar aos/as ouvintes o poder de compreender no aramaico ou na língua em que os discípulos falavam. Pedro explica o Pentecostes na profecia de Joel: "Vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos jovens terão visões, e os vossos velhos sonharão" (Atos 2:17). Esta parte do discurso é inerentemente polifônica. Não há uma visão, mas várias visões. Na hegemonia, pelo contrário, filhos e filhas não tem espaço para profetizar, pois tudo o que precisam saber, já foi dito.

Se cada instrumento de uma sinfonia tocasse exatamente a mesma nota, o tempo todo, a verdade da sinfonia estaria comprometida. Isso não quer dizer que não haja verdade, e que todo mundo deva observar apenas aquilo que gosta, mas, sim, que é uma verdade harmônica em vez de notas individuais. Estamos dando aos acordes e as melodias mudanças básicas, mas, talvez, o Deus que odeia a Torre de Babel, quer que façamos de Sua canção a nossa própria, improvisando junto com Ele.

Ao invés de hegemonicamente se esforçar para desenhar tudo em conformidade exata, talvez a vida de uma comunidade cristã saudável seja um processo de improvisação, encontrando as harmonias que são belas, aceitando uma canção cuja as tensões estejam perpetuamente insolúveis. Essa improvisação é difícil de controlar e, de fazer dela um produto que se possa vender, mas, novamente, por isso, é o Espírito Santo.

Baseado no texto de Morgan Guyton.