Ilustrador se inspira em história de amigo e cria HQ sobre transexual

Revista foi construída a partir de depoimentos reais e situações cotidianas.
Lançado neste sábado (18), álbum está disponível para download gratuito.
HQ mistura fotografias com traços do ilustrador ribeirão-pretano Cordeiro de Sá (Foto: Reprodução/HQ)"A maioria das pessoas que acha um absurdo aceitar um (a) transexual na sociedade nunca parou para refletir sobre o assunto." Essa é a opinião do ilustrador e arquiteto Cordeiro de Sá, de Ribeirão Preto (SP), que lançou neste sábado (18) uma revista em quadrinhos para contar a história de um amigo de infância que se tornou transexual. A HQ “Malu - memórias de uma trans” é o resultado de uma pesquisa com personagens reais e fictícios, que esbarram no preconceito de uma sociedade intolerante.
Cordeiro de Sá conta que a revista nasceu de uma questão pessoal, já que gays e lésbicas sempre fizeram parte do seu convívio, na vida pessoal e profissional. E, ao contrário do que muitas pessoas podem pensar, o autor da HQ é heterossexual. “Tenho grandes amigos, mestres e alunos gays e isso nunca foi um problema para mim. Pelo contrário, sempre admirei muito essas pessoas, independente de suas preferências sexuais. Não seria diferente com os(as) transexuais”, conta o ilustrador.
Inspirado na vida de um amigo de infância “Malu - memórias de uma trans” mostra a batalha de um garoto que nasceu querendo ser mulher. A ideia original surgiu quando o autor reencontrou o amigo em uma rede social e percebeu que ele havia se tornado numa atriz e drag queen. Nas conversas que tinham pela internet, o amigo contava das transformações físicas que havia se submetido, como por exemplo, a ingestão de hormônios.
"Em determinado ponto, cheguei a pensar que ela estivesse de TPM. Até brinquei que estava se comportado como a minha esposa. Acabamos criando um laço de confiança, ela começou a me contar muitas histórias e pensei que daria para criar algo em cima desse contexto”, relembra o desenhista, que reencontrou o amigo pessoalmente tempos depois, em uma viagem de ônibus. Os dois conversaram durante todo o trajeto.
Cordeiro de Sá criou revista em quadrinhos sobre transexual inspirado em história de amigo (Foto: Analídia Ferri/G1)Cordeiro de Sá buscou inspiração na história de
um amigo para criar HQ sobre transexual
(Foto: Analídia Ferri/G1)
"Nasceu a ideia de fazer um HQ e optei por falar dos conflitos, amores e mudanças. Não seria uma história feita para chocar, mas também não seria pasteurizada. A ideia era mostrar uma pessoa e não uma orientação ou identidade sexual. Isso pouco importa. O que importa mesmo é a pessoa que tem sentimento, vida e criatividade”, conta Cordeiro de Sá.
O ilustrador partiu então para a criação do roteiro. Pesquisou muito sobre o assunto, conversou com outras transexuais, entrevistou e recebeu consultoria técnica para adequar as histórias à linguagem dos quadrinhos. Após dois anos entre pesquisa, roteiro e execução, “Malu” saiu pelo selo RPQH, com tiragem de 5 mil exemplares. O projeto também foi contemplado pelo Programa de Incentivo Cultural (PIC), da Secretaria da Cultura de Ribeirão Preto, e está disponível gratuitamente para download, por este link.
Malu - memórias de uma trans é elogiada por quadrinista Laerte Coutinho (Foto: Reprodução Malu -memórias de uma trans/Divulgação)HQ 'Malu - memórias de uma trans' foi elogiado
pelo quadrinista Laerte Coutinho
(Foto: Reprodução /Divulgação)
Laerte aprova
Por meio das redes sociais, o trabalho chegou às mãos do quadrinista Laerte Coutinho, que vive um momento de transformação, adotando o estilo crossdressing há três anos. Laerte conta que, no início, pensou que a obra tivesse sido feita por um transexual, devido ao realismo dos acontecimentos narrados. "Acho que relatos desse tipo contribuem muito para que a imagem - e autoimagem - das pessoas trans se invista de dignidade”, diz.

Laerte demorou décadas para assumir sua homossexualidade, chegou a casar por três vezes e teve três filhos. Para o quadrinista, as mudanças de paradigmas sobre temas que envolvem a sexualidade já estão inseridas na realidade de homens e mulheres que assumem o sexo oposto. 
"A sociedade não é algo externo à vida das pessoas trans. Talvez esta seja uma visão recorrente e, de alguma forma, auto-vitimizadora: a de que existe uma “sociedade” exterior à gente, que nos oprime e nos encarcera. Esquecemos que fazemos parte disso. Toda mudança que propomos para nós mesmas é também uma proposição social”, diz.
Fonte:http://g1.globo.com/