sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Mãe de Lance Bass faz discurso sobre amor a gays em igreja

Cansada de ver o filho ser repelido em sua igreja, mãe do ex N'Sync diz que papel do cristão é amar

Traduzido do post escrito por Lance Bass para o Huffington Post
Crescer sendo uma criança gay no sul dos Estados Unidos não foi fácil. O medo constante de que as pessoas descobrissem quem você é de verdade e a vergonha inevitável que cairia sobre mim e minha família ditavam como eu levava minha vida todos os dias. Para a minha sorte, eu morei em lugares em que não me lembravam o tempo inteiro que eu era uma abominação. Meus familiares, no entanto, ainda vivem numa das regiões mais intolerantes contra a comunidade LGBT e são constrangidos por terem um gay famoso na família. Quando eu saí do armário, eles tiveram que sair também.
Por anos eles tiveram que lidar com os olhares acusadores e as lamentações constantes de amigos e estranhos, como se eu tivesse morrido. “Eu sinto muito, vocês estão em nossas orações.”
Meus pais não gostam de criar caso e evitam todo tipo de atenção. Por anos eles procuraram educar a si mesmos discretamente sobre seu filho e a comunidade LGBT, como adultos responsáveis. Minha mãe leu a Bíblia quatro vezes seguidas e comprou todos os livros já escritos sobre Cristianismo e homossexualidade. Quando ela percebeu que a situação não estava melhorando em sua igreja a respeito desse assunto, ela decidiu ir contra sua personalidade pacífica e fazer com que sua comunidade soubesse exatamente o que eles estavam fazendo com ela.
Numa carta aberta e honesta para sua igreja, ela sugeriu como que os verdadeiros cristãos deveriam agir com relação à comunidade LGBT. Essa carta foi tão bem recebida que uma outra igreja local a convidou para discursar em sua congregação, já que acreditavam que era hora de dar início a um diálogo sobre isso dentro da igreja. A transcrição desse discurso segue abaixo. Eu estou muito orgulhoso de minha família, principalmente minha mãe, por causa da maneira como ela agiu nesse período tão confuso de sua vida. Para mim, ela representa os cristãos verdadeiros, e a crença da maioria dos cristãos do país hoje em dia.
Vou começar avisando que não estou acostumada a falar em público. Para falar a verdade, esta é a primeira vez que eu falo publicamente sobre esse assunto, então peço para que vocês sejam compreensivos. Desde que eu aceitei o convite para falar com vocês, eu tenho pedido coragem, e peço para que vocês orem por mim enquanto eu tento compartilhar com vocês o que está em meu coração.
Eu vim aqui compartilhar meu testemunho. Por favor entendam que eu NÃO estou aqui para discutir a questão da homossexualidade. Eu nunca faria isso porque eu não tenho todas as respostas e provavelmente jamais as terei nessa vida. A Bíblia alerta contra os ensinamentos falsos, e eu jamais diria qualquer coisa que poderia possivelmente se passar por um ensinamento enganoso. No entanto, há coisas que eu sinto que devo compartilhar, que eu sei sem sombra de dúvida serem verdadeiras, e eu as dividirei com vocês hoje a noite.
Em primeiro lugar, vocês precisam saber que eu sou batista desde que nasci. Eu frequentei a escola da igreja aos domingos. Eu me casei com um homem que seguia os mesmos princípios cristãos, e nós criamos nossos dois filhos dentro da igreja. Meu marido é diácono, eu dei aulas na escola da igreja,  cantei no coro, lecionava nas aulas de estudos bíblicos nas férias, e frequentei retiros assim como muitos de vocês. Meus dois filhos foram batizados bem jovens, e dois dos meus três netos também já foram batizados. Nós somos uma família cristã com raízes enterradas profundamente na igreja e nos ensinamentos da Bíblia.
Há sete anos nós descobrimos que Lance é gay. Nós fomos totalmente pegos de surpresa e ficamos arrasados, porque nunca jamais suspeitamos disso. E, também, como foi um ato tão público, a situação foi muito mais difícil para nossa família. Eu não quero me debruçar sobre os detalhes íntimos dessa revelação, mas eu vou lhes dizer que a primeira coisa que eu fiz ao saber foi cair de joelhos e me perguntar: “O que Jesus faria?”. Eu soube a resposta quase que imediatamente… Amar meu filho. E é isso que eu tenho feito. Em nenhum momento eu pensei em virar minhas costas para ele. Nem por um instante eu senti vergonha ou constrangimento. Meus sentimentos eram mais de tristeza e pura decepção com a vida.
Se você acredita que ser gay é uma opção, então tudo mais que eu vou dizer aqui não vai fazer diferença para você. Não sei porque, mas mesmo sendo uma cristã fervorosa, eu pessoalmente nunca acreditei que ser gay era uma opção. Eu nunca conheci muitos gays, mas eu senti compaixão por aqueles que eu encontrei, porque podia reconhecer a dor que sentiam, e meu coração ficava muito tocado por eles. Mesmo nunca acreditando que Lance decidiu ser gay, eu não aceitei isso com a mesma facilidade que meu marido. “As coisas são como são”, foi sua atitude. A minha foi “Sim, as coisas são como são, mas Deus é capaz de operar milagres, então eu vou implorar por um milagre que fulmine Lance e faça com que ele se torne heterossexual!”. E eu fiz isso mesmo. Eu continuava amando meu filho, eu o apoiava, e o defendia, mas por muitos anos eu continuei a orar incessantemente por um milagre.
Bem, o Lance continua sendo gay. No entanto, um milagre realmente aconteceu. Só não foi o milagre pelo qual eu tanto orei. Você está presenciando este milagre nesse momento, nessa noite. O milagre foi que eu aprendi a ter um amor e compaixão incondicionais por meu filho e outros indivíduos da comunidade gay. Eu não participo de paradas ou faço discursos em convenções, mas eu sinto sim que Deus me guiou para que eu discutisse o papel da igreja nessa questão. Meu filho é cristão e deseja participar do culto, mas não sente que a igreja se importa com ele, e acredita que foi praticamente descartado como um crente. Há algo muito errado nessa atitude, e eu tenho que levantar a voz em prol do meu filho e de outros que se encontram na mesma situação. Quando eu era criança eu acompanhei meus avós em uma celebração no jardim do tribunal da cidade de Laurel. Eu fiquei com sede e corri até um dos bebedouros para beber água. Minha avó gritou me mandando parar. Quando eu olhei para o bebedouro, vi que ele tinha uma placa que dizia “pessoas de cor”, e ela me disse que eu tinha que usar um dos outros. Eu tinha apenas 6 anos, mas eu já reconheci que aquilo não era certo. Assim como meu coração me dizia que aquilo que acontecia no jardim do tribunal não estava certo, meu coração me diz agora que o jeito que a igreja trata aqueles que são gays também não está certo.
Eu poderia relatar para vocês inúmeras histórias que os jovens gays me contaram sobre como que os ditos cristão tratam eles, mas vou apresentar apenas uma. Um desses jovens me disse que estava em busca de Deus e visitou uma grande igreja num domingo de Páscoa. Ele estava usufruindo de uma cerimônia belíssima e sentia-se muito envolvido na experiência.
Todos estavam de pé cantando um hino, e quando ele se sentou havia um bilhete sobre sua cadeira. Nele estava escrito “Você sabe que você vai para o inferno”. Ele me disse que nunca mais foi à igreja. Eu não o culpo, mas, pelo que eu sei, ele não aceitou Cristo e portanto está perdido.
Quando eu descobri que Lance é gay, eu mergulhei no Evangelho em busca de respostas. As passagens que seguidamente me chamavam a atenção foram aquelas em que Jesus advertia contra julgamentos. A pessoa que escreveu esse bilhete deveria levar em conta essas advertências. Jesus diz em Lucas 6:37 “Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados”. Jesus está nos mostrando que não há como levar alguém até Ele se nós os estamos julgando e condenando.
Quando eu ouço colegas de escola dominical, colegas de trabalho, políticos e cristãos na TV e no rádio dizerem coisas negativas e acusatórias contra gays, eu sinto um aperto no coração. Não apenas a comunidade cristã está afastando os gays que são cristãos, mas também está alienando aqueles que se encontram perdidos.
Eu acredito com todo o coração que Jesus diria a todos os cristãos gays que eles pertencem a Ele e que Ele os ama incondicionalmente. Jesus diz em João 10:27-28 “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, eu as conheço e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; elas jamais hão de perecer, e ninguém as roubará de minha mão”.
Sinto que estou no meio de uma jornada que continua a cada dia. E gostaria de compartilhar mais uma última revelação dessa jornada. Como eu sou uma pessoa de coração tão frágil, às vezes esse coração tão ferido parecia insuportável, e eu pedi que Deus levasse esse coração sensível. Uma das definições de um coração frágil é ter compaixão. No dia seguinte eu li essa passagem: “Se me é possível, pois, alguma consolação em Cristo, algum caridoso estímulo, alguma comunhão no Espírito, alguma ternura e COMPAIXÃO, completai a minha alegria, permanecendo unidos. Tende um mesmo amor, uma só alma e os mesmos pensamentos. (…) Dedicai-vos mutuamente a estima que se deve em Cristo Jesus”. A mensagem de Deus para mim estava clara. Se eu não tivesse compaixão pelos outros, eu nunca teria a mesma atitude que Cristo. Eu nunca mais orei para que Deus levasse embora meu coração compassivo. Acredito que a igreja precisa demonstrar essa mesma compaixão por todos, independentemente de gênero, de raça, e de orientação sexual.
Minha passagem predileta sempre foi “Deus é nosso refúgio e nossa força, mostrou-se nosso amparo nas tribulações” (Salmos 46:1). Eu verdadeiramente encontrei refúgio no Senhor, mas infelizmente devo dizer que não encontrei refúgio na minha igreja. Nem eu, nem Lance, nem tantos outros cristãos como ele que querem ser amados e aceitados num mundo que pode ser tão cruel e cheio de ódio. Eu ainda frequento a igreja, mas admito que faço isso com o coração pesaroso, e cheia de ansiedade. Se eu me sinto assim por ser a mãe de um filho gay, vocês conseguem imaginar a ansiedade que sente um gay quando se senta numa igreja? Repito, há algo muito errado nisso.
Seria necessário um livro para contar todos os pequenos detalhes de minha jornada e tudo por que passei e tudo que aprendi no caminho. Eu tentei dar um testemunho breve de tudo que Deus plantou em meu coração. Eu rogo para que possamos todos tentar ter uma atitude como a de Cristo enquanto estamos nessa terra. Nós, como cristãos, devemos deixar o Espírito Santo nos guiar para que encontremos maneiras de alcançar a todos, não importando nossas diferenças, porque eu realmente acredito que essa é a coisa certa a se fazer. Estou convencida de que é o que Jesus faria.
Obrigada a todos por permitirem que eu compartilhasse isso com vocês, e que Deus os abençoe.
Diane Bass
 Fonte:http://www.ladobi.com/