IGREJA DOS DIREITOS HUMANOS


A Igreja da Comunidade Metropolitana do Brasil escolheu como lema para o Ano Litúrgico do Ciclo A, o Ano de São Mateus, o tema que intitula este editorial e os versículos retirados do Sermão da Montanha ou Sermão do Monte que se encontra no capítulo 5 do Evangelho segundo São Mateus. Tal Sermão que reúne, talvez, os principais ditos de Jesus aos seres humanos que O aderiram é também conhecido como a Carta Magna do Reino de Deus sob o senhorio de Cristo, o Rei do Universo.
O tema, mais que um programa a ser cumprido, é um desafio: VIVER A DIFERENÇA QUE TRANSFORMA O MUNDO.
Particularmente eu preferiria o verbo transtornar ao verbo transformar, mas é mais acertado o transformar, porque quem deseja e sente o chamado de transformar, ou seja, suplantar a formação atual sugere uma atitude de coragem, mas, igualmente de humildade sem ufanismos ou prepotência.
Mais que um programa a ser seguido é um desafio a ser vivido. Viver a diferença que transforma o mundo é não se adequar às ideologias, aos esquemas, às filosofias, às teorias, às teorias políticas e econômicas que regem nosso mundo, mas caminhar em rota de colisão com tudo o que está tornando o mundo um lugar cada vez difícil de se viver com saúde, paz e alegria.
As ideologias, que não mudaram tanto desde as Grandes Revoluções do século XVIII, e, depois, com a ascensão e aceitação de boa parte do mundo das doutrinas marxistas não mudaram o mundo. Não fizeram dele um lugar melhor. Elas não atestam o que Jesus certa vez dissera: “O Reino de Deus está entre vós.” Pelo contrário, a História nos prova que tais ideologias, transformadas em sistemas operatórios da política e da economia em vários países da terra, derramou muito sangue inocente, fez sofrer muita gente, arruinou famílias, suscitou guerras sangrentas, produziu campos de concentração e gulags, arruinou vidas caras aos olhos de Deus.
Teóricos sociais dizem que a tal pós modernidade é o atestado da crise – e porque não dizer falência do modelo binário capitalismo x socialismo – que ainda divide o mundo. Se bem que, não podemos, sob pena de sermos desonestos com as teorias de Marx, chamar o comunismo de marxismo, porque definitivamente não foi marxismo, tampouco o socialismo que o grande Marx sonhou e teorizou, mas um arremedo deste. O capitalismo gerou uma angústia e uma crise existencial, econômica, política e cultural como nenhum outro sistema ou ideologia que desde o Papa Leão XIII, tal sistema é duramente criticado pelos cristãos comprometidos a transformar o mundo.
A banda ocidental do globo terrestre adotou um capitalismo selvagem, imperialista e criou o totem do consumismo. Mantém trabalhadores sob a chibata da mais valia e não transforma estruturalmente absolutamente nada que beneficie o excluído e o oprimido ser humano. A outra banda não fez diferente. Gerou igrejas estatais, ou seja, controladas pelo Estado, derrubou e proibiu símbolos cristãos e comunidades de fé e ainda perdura por lá as igrejas clandestinas acorrentadas pelo Estado ou como na China, uma Igreja estatal controlada pelo regime. Em ambos os lados do jogo político, a comunidade de Jesus, ou seja, sua Igreja – que não é e jamais será uma denominação específica, está, de uma maneira ou de outra, submetida aos pressupostos das ideologias, dos pressupostos e do modus operandi dos Estados onde se faz presente.
A Igreja de Jesus, fundada para transformar o mundo e agir como o Senhor da História, ou seja, botar o mundo de ponta à cabeça, transtorna-lo, encontra-se engessada, acorrentada, contaminada e se faz reprodutora, para não dizer propagandista das ideologias humanas que não transformam nada além do tesouro dos mais poderosos e bem postos. A instituição Igreja até colaborou no caso da banda capitalista com os sangrentos regimes ditatoriais e imperialistas, jamais denunciando como deveria, com raras exceções, o batismo de sangue promovido por tais ditaduras como ocorreu na América Latina, aliás, colaborou com tudo, inclusive entregando os seus à tortura e ao martírio como a história registra.
Institucionalizada e uma forma de poder, a instituição chamada Igreja foi mais produtora de opressão, subjugo e morte que promotora de vida, justiça e paz, porque uniu altar e trono, poder e religião. Tudo isso está muito distante do que Jesus pregou e ordenou!
A ICM é uma Igreja que não se pretende uma religião, entendo religião como um sistema que se alia ao poder, seja ele qual for, para ajuda-lo na opressão e subjugo de seres humanos. Ela pretende e luta para ser a comunidade de Jesus, libertária, libertadora, inclusiva e que transtorna o mundo, o revoluciona.
Por isso, porque temos esta visão, andamos na contra mão, na verdade em rota de colisão com as demais que aderiram a institucionalização de uma instituição que se diz cristã mancomunada com o poder opressor.
É a nossa vocação profética: ser consciência do Estado, jamais colaboradora de qualquer sistema econômico e político que oprime, exclui, assassina. Nossa vocação profética é denunciar os desmandos, as injustiças, o que oprime e os opressores. Jamais nos calar diante de qualquer coisa que não promova a dignidade da pessoa humana e seu direito à liberdade, plena cidadania, igualdade e libertação, além de inclusão radical.
Por isso escolhemos “viver a diferença que transforma o mundo” como um DESAFIO. Porque o é. É um chamado à contramão. À rota de colisão com tudo o que neste nosso mundo oprime, exclui, escraviza, alija, depaupera, mata e faz matar, inclusive as práticas institucionais com aparência de espiritualidade que trazem o nome de Cristo, mas que de Cristo nada tem. E isso não é chamar para a briga, mas viver nosso chamado, a radical inclusão. Viver nosso compromisso de ser a voz dos não têm voz nem vez, enfim, ser consciência do Estado e jamais colaboradora deste!
Mais que um lema, portanto, é um projeto de Igreja, um programa a ser vivido onde quer que estejamos no Brasil, uma bússola para guiar nossas práticas dentro e fora das quatro paredes dos nossos santuários.
VIVER tal programa é cumprir os artigos da Carta Magna do Reino de Deus que nos ordena ser sal e luz no mundo.
O mundo precisa de sal porque está sem sabor, está insosso e traz dessabor, angústia e sofrimento atroz aos seres humanos que nele habitam. Milhares de brasileiros, principalmente os que fazem parte de uma minoria social ou de uma classe social não detentora dos modos de produção, mas escrava deles, vivem uma vida insossa, desprovida de tempero que traz paz, alegria, esperança e dignidade. Nosso programa pretende que sejamos sal na vida dessa gente que “tem mania de ter fé na vida”. Se assim cumprirmos estaremos fazendo o que nos foi ordenado pelo nosso Rei, Salvador e Senhor.
Da mesma forma o desafio de ser LUZ no mundo. Poucos percebem, mas o nosso mundo está em trevas! Como disse Jesus, “jaz no Maligno”. A palavra mundo, em nossas bíblias, significa não a geografia do planeta terra: Estados, territórios, unidades federativas, regiões, municípios ou a zona rural da Terra, mas um SISTEMA. Um sistema que não produz nada do que o Evangelho santo e bendito do Senhor Jesus ordena aos seus.
No sistema mundo, o lucro e o enriquecimento baseado no trabalho quase escravo – e tantas vezes escravo mesmo – não gera justa distribuição de renda e vida digna de um ser humano. No sistema mundo a terra imensa cercada por arames farpados pertencem a poucos enquanto muitos necessitam dela para viver. No sistema mundo a saúde de criança, adolescentes, jovens e idosos é maltratada e é uma indústria de enriquecimento ilícito dos poderosos que desviam verbas, não cumprem suas tarefas adequadamente, não constroem hospitais e postos de atendimento adequados e não distribui remédios. Nossas crianças, jovens, adultos e idosos estão morrendo – inclusive os que podem pagar a indústria dos planos de saúde.
O sistema mundo está em trevas porque não produz justiça! O que este sistema chama por justiça beneficia os poderosos e bem postos em detrimento dos demais. A injustiça bem como a pobreza no nosso país tão inserido nesse sistema mundo tem cor e índices econômicos bem característicos. São os negros, os pobres e miseráveis, as minorias de modo geral.
O sistema mundo não respeita a diversidade humana, mas olha o mundo a partir de um binarismo raso e rasteiro. Não respeita a liberdade de expressão, de religião, de dignidade da pessoa humana. Quebra um por um dos artigos dos Direitos Humanos!
O sistema mundo promove o patriarcalismo, o machismo, a misoginia, a homofobia, os preconceitos de cor, raça, credo, origem etc. Reforça tais preconceitos.
O sistema mundo invade nossos lares pela TV e rádio com seus missionários do consumismo sem limites, fazendo-nos sonhar com coisas que não necessitamos apenas para gerar dívidas nas famílias e lucros para os fabricantes de sonhos que na verdade são pesadelos.
 O sistema mundo vende e promove somente um determinado modelo de família, de sucesso, de “felicidade” baseada em coisas que passam e que não traz real segurança e paz. O sistema mundo promove morte, desolação, infelicidade, separações, constrói muros que separam, jamais pontes que unem. O sistema mundo está em trevas – densas e profundas trevas e necessita, ainda que não saiba ou ainda que sabendo, rejeita, da Luz de Jesus e do seu Evangelho.
Este é o desafio que a ICM Brasil toma para si neste ano de 2014! Transformar o mundo pela diferença “de tudo o que sustenta este mundo!” Em linguagem espiritual, derrubar o ídolo frágil de pés de barro!
O desafio não é nada fácil, exige o tempo todo ética, autoexame, vigilância pra dentro e pra fora dos nossos muros, embates com os poderosos e bem postos, ação concreta em todas as áreas sociais, participação direta em ações que visam derrubar o ídolo e palavra que anda junto com o testemunho. Práxis alinhada e azeitada com o discurso, ou seja, coerência de vida!
Ao nosso lado temos os profetas bíblicos, todos eles agiram assim; temos os heróis e heroínas da fé, não somente os bíblicos, mas os que viveram e ainda vivem em nosso tempo. Temos a teologia encarnada no chão da vida. Para além, temos irmãs e irmãos que chamam Deus por outros nomes, pois Ele tem muitos e até mesmo aqueles que não creem em deus algum, mas que sonham com um mundo transformado e fazem de suas vidas uma diaconia/serviço ao mundo em trevas e que, por isso, são sal da terra e luz do mundo!
Nosso tema anual não pode e nem queremos que seja apenas um tema printado em banners bonitos que transformamos em cartazes ou dividimos nas redes sociais!
Nosso tema anual é para ser vivido por cada ser humano que professa a fé em Cristo na ICM Brasil e ainda têm aqueles que não estão em nossas fileiras, mas que serão chamados por nós para juntos lutarmos pelo desafio a ser vivido.
Que Deus nos dê porção dobrada do Seu Santo Espírito que estava sobre os profetas de Israel e dos mártires da Igreja de Cristo. Que este fogo santo queime nossos corações  de tal forma que não consigamos abandonar o projeto. Que os gigantes da fé que nos antecederam nos ajude a imitar-lhes o testemunho de vida que nos deixaram, nos inspirem – são nossa nuvem de testemunhas! Que nos encorajemos uns aos outros na lida, amparando os francos, fortalecendo lhes. Que possamos firmar nosso joelhos trôpegos e fortalecer nossas mãos trêmulas para a batalha proposta. Acima de tudo, que nos abençoe o Deus Pai/Mãe e Filho e Espírito Santo.
Que assim seja! Amém, amém e amém!
SOLI DEO GLORIA!
Rev. Marcio Retamero – Pastor da ICM Brasil