CRESCE EM NÚMERO ACELERADO O NÚMERO DE MEMBROS DAS IGREJAS INCLUSIVAS.

(ESTA MATÉRIA NÃO É NOVA, NA REALIDADE AINDA É DE 2012, MAS COLOCAMOS PRA QUE TENHAM UMA IDEIA DO CRESCIMENTO DAS IGREJAS INCLUSIVAS NO BRASIL, HOJE COM CERTEZA O NÚMERO É MAIOR.)
Encaradas pelas minorias como um refúgio para a livre prática da fé, as igrejas "inclusivas" - voltadas predominantemente para o público gay - vêm crescendo a um ritmo acelerado no Brasil, à revelia da oposição de alas religiosas mais conservadoras. Estimativas feitas por especialistas a pedido da BBC Brasil indicam que já existem pelo menos dez diferentes congregações de igrejas "gay-friendly" no Brasil, com mais de 40 missões e delegações espalhadas pelo país.
Culto de igreja LGBT no Rio de Janeiro


Concentradas, principalmente, no eixo Rio de Janeiro-São Paulo, elas somam em torno de 10 mil fiéis, ou 0,005% da população brasileira. A maioria dos membros (70%) é composta por homens, incluindo solteiros e casais, de diferentes níveis sociais.

O número ainda é baixo se comparado à quantidade de católicos e evangélicos, as duas principais religiões do país, que, em 2009, respondiam por 68,43% e 20,23% da população brasileira, respectivamente, segundo um estudo publicado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio de Janeiro.
O crescimento das igrejas inclusivas ganhou força com o surgimento de políticas de combate à homofobia, ao passo que o preconceito também diminuiu, alegam especialistas. Hoje, segundo o IBGE, há 60 mil casais homossexuais no Brasil. Para grupos militantes, o número de gays é estimado entre 6 a 10 milhões de pessoas.
Segundo a pesquisadora Fátima Weiss, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que mapeia o setor desde 2008, havia apenas uma única igreja inclusiva com sede fixa no Brasil dez anos atrás. "Com um discurso que prega a tolerância, essas igrejas permitem a manifestação da fé na tradição cristã independente da orientação sexual", disse Weiss à BBC Brasil.
O número de frequentadores dessas igrejas - que são abertas a fiéis de qualquer orientação sexual - acompanhou também a emancipação das congregações. Se, há dez anos, os fiéis totalizavam menos de 500 pessoas; hoje, já são quase 10 mil - número que, segundo os fundadores dessas igrejas, deve dobrar nos próximos cinco anos.



Resistência

As igrejas inclusivas ainda enfrentam forte resistência das comunidades católicas e evangélicas. Embora a maior parte delas siga a tradição cristã - pregando, inclusive, o celibato antes do casamento e a monogamia após o matrimônio - ainda não são reconhecidas oficialmente por nenhum desses dois grupos.

Não raro, em igrejas tradicionais, os homossexuais são obrigados a esconder sua opção sexual. Descobertos, acabam sendo expulsos - ou, eventualmente, submetidos a tratamentos de "conversão" para se tornarem heterossexuais.
"Segundo a Bíblia, homossexualidade é pecado. Na igreja evangélica, gay só entra caso queira se converter e, para isso, tem de se tornar heterossexual. É uma regra de Deus", disse à BBC Brasil Silas Malafaia, fundador de uma das principais igrejas evangélicas do Brasil, a Assembleia de Deus - Vitória em Cristo. "Tenho vários casos de ex-gays na minha igreja. Trata-se de um desvio de comportamento; afinal, gays têm a mesma ordem cromossômica que nós, heterossexuais. Depende deles, portanto, mudar sua opção sexual para serem aceitos na nossa comunidade", acrescenta.
A pernambucana Lanna Holder, de 37 anos, acreditava poder "curar" a atração que sentia por mulheres que, segundo ela, vinha "desde a infância". Usuária de drogas e alcoólatra, Lanna converteu-se a uma igreja evangélica aos 21 anos, passando a fazer pregações no interior do Brasil. "Enquanto todas as meninas brincavam de boneca, eu soltava pipa e jogava futebol", lembra ela à BBC Brasil.
Lanna tornou-se uma das principais pregadoras da igreja Assembleia de Deus, a mais importante do ramo pentecostal no Brasil. Casou-se aos 24 anos e, dois anos depois, teve um filho. Mas durante uma viagem aos Estados Unidos em 2002, conheceu outra pregadora, Rosania Rocha, brasileira que cantava no coral de uma filial da igreja em Boston. Um ano depois, elas tiveram um caso amoroso às escondidas e acabaram expulsas da comunidade.
De volta ao Brasil em 2007, Lanna teve a ideia de criar uma igreja voltada predominantemente para homossexuais que, como ela, não ganharam acolhida em outra vertente religiosa. Ela montou a "Comunidade Cidade Refúgio", no centro de São Paulo.
De reuniões pequenas, com apenas 15 pessoas, a igreja possui hoje 300 fiéis e planeja abrir uma filial em Londrina, no Paraná, até o fim deste ano.
Origem
O embrião das igrejas inclusivas começou a surgir no Brasil na década de 90, em pequenas reuniões feitas normalmente sob sigilo. Nos Estados Unidos, entretanto, elas já existem há pelo menos quatro décadas, praticando o que chamam de "teologia inclusiva", com um discurso aberto à diversidade.

Um das pioneiras foi a Igreja da Comunidade Metropolitana (ou Metropolitan Church), a primeira a ter sede própria no Brasil, em 2002.


FonteBBC BRASIL



Vivíamos escondidas até encontrar igreja que nos aceitasse', diz casal gay 


 
Susane (sentada) e Noemi são casadas 
e ministram curso para deficientes auditivos 
em uma igreja LGBT em SP


Há seis anos, a piauiense Susane Borges, de 43 anos, participava da parada gay de São Paulo quando foi abordada por um fiel da Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM), de quem partiu um convite para visitar a sede da congregação, voltada para o público homossexual, no centro de São Paulo.
Criada na Igreja Católica, Susane temia participar de cultos tradicionais. Desde 2005 vivendo com a companheira, Noemi Miranda, de 51 anos, ela já não aguentava mais ser vítima de preconceito.
Há pouco mais de três anos, as duas foram obrigadas a mudar de endereço quando os vizinhos descobriram que elas mantinham um relacionamento amoroso. Susane, que era esteticista e mantinha sua clínica em casa, acabou perdendo todos os clientes.
Hoje, as duas frequentam a ICM aos sábados e aos domingos. Na congregação, Susane cuida do ministério dos surdos, ajudando pessoas que, como sua companheira, sofrem de deficiência auditiva.
"Aqui, me sinto em casa. Não sou vítima de preconceito e ainda posso fazer novas amizades com outros casais homossexuais", conta ela à BBC Brasil.
Namoro
Natural de Teresina, Susane vive em São Paulo desde os 26 anos. Acreditava que, na cidade, se sentiria "mais livre" para ter relacionamentos homossexuais.

Em 2005, conheceu Noemi em uma sala de bate-papo na internet voltada para gays. Pouco tempo depois, marcaram um encontro e estão juntas até hoje. Mas o começo do relacionamento foi "difícil". Ex-evangélica, Noemi, que havia sido casada com um homem por dois anos, já tinha um casal de filhos, Renato e Clarice, que, segundo ela, se espantaram quando souberam da orientação sexual da mãe.
Divorciada, Noemi levou as crianças para morar junto com Susane.
"No início, eles não entendiam muito bem, mas, pouco a pouco, perceberam que eu era mais feliz assim", afirma.
Hoje, Susane e Noemi vivem com o filho Renato, que está noivo. A filha, Clarice, que engravidou na adolescência, saiu de casa há duas semanas para morar com um novo companheiro.
"Costumo brincar que meu neto tem duas avós maravilhosas", completa Susane.

FonteBBC BRASIL