segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Homenagem a Sylvia Rivera

Sylvia Rivera foi uma ativista Trans e ícone LGBT famosa por seu papel na linha de frente dos motins do Stonewall. Ela trabalhou em nome dos membros marginalizados da comunidade Gay, especialmente aqueles que enfrentam a pobreza, o racismo, e transfobia. Sylvia sempre é lembrada nas Igrejas da Comunidade Metropolitana, por sua luta e pela dedicação à ICM Nova York, onde assumiu a função de coordenadora. 
Convidamos você a conhecer um pouco da empolgante história de luta e resistência de Sylvia Rivera.
O Inspetor Seymour Pine comandava a equipe de 8 detetives locados na NYCPD - a Delegacia de Costumes da Cidade de Nova York - no plantão da madrugada de 27 de junho de 1969, que parecia ser o de uma sexta-feira como todas as outras. No Greenwich Village, membros da comunidade gay vindos do funeral de Judy Garland, reuniram-se no Stonewall - o seu bar preferido - quando, mais uma vez, foram afrontados pela truculência policial. Após a visita dos tiras, como sempre rápida e rasteira, dois funcionários, três drag-queens e uma lésbica acabaram presos. As travestis e transformistas resistiram à prisão e começaram o confronto que duraria três dias. Logo homens e mulheres que frequentavam o local se juntaram a elas marcando o ponto de partida simbólico do Orgulho Gay (Gay Pride). De acordo com as histórias e lendas contadas a partir dos enfrentamentos de Stonewall, Sylvia Rivera (1951-2002) drag queen de origem porto-riquenha, foi quem iniciou o movimento gay de protesto contra a violência policial tornando-se um dos mais visíveis e atacados membros da comunidade LGBT. Depoimentos de sobreviventes que estavam naquela noite no bar, contam que Sylvia tomou, literalmente, para si a carga de enfrentar a polícia, lançando os sapatos de salto e os coquetéis molotov que afastaram os tiras por alguns instantes.
sylvia e jose
(Sylvia Rivera e José Gutierrez - Igreja da Comunidade Metropolitana de Nova York - MCC - NY)
Sylvia Lee Rivera, nascida em 2 de julho de 1951 como Rey Rivera Mendoza, saiu de casa aos onze anos e, durante os anos 60, sobreviveu nas ruas de Nova York. Ali conheceu, em primeira mão, os perigos que rondavam os transgêneros e as injustiças sociais cometidas contra eles, contra as drag 
Sylvia
queens e as prostitutas lésbicas. Nos anos que se seguiram a Stonewall, Sylvia Rivera tornou-se um ícone do movimento gay e participou ativamente do lobby no congresso americano para os direitos civis dos gays e dos transexuais. Procurou chamar atenção, repetidas vezes, para o que chamava transfobia e que, segundo ela, existia amplamente nas comunidades gays e lésbicas. Em 1970, Rivera associou-se à Aliança de Ativistas Gays (GAA) e ali também lutou para aprovar, junto à municipalidade nova-iorquina, leis que protegessem os transgêneros. A própria GAA tratou de excluí-los de seu programa de ação, embora os políticos - todos aparentemente heterossexuais - estivessem dispostos a votar a favor. Sylvia ficou chocada e desiludida com o movimento. Ainda em 1970, Sylvia e Marsha P. Johnson criaram o grupo “Street Transvestite Action Revolutionaries” (S.T.A.R). Esses “Transgêneros de Rua Revolucionários”, se organizaram para lutar pelos direitos dos travestis e transexuais jovens, cuidando para que tivessem acesso aos serviços de saúde e lares onde pudessem morar. Problemas com os moradores do East Village fecharam o estabelecimento dois anos depois.

Sylvia St
Este trabalho pioneiro de Sylvia Rivera serviu como inspiração para futuros abrigos de transexuais de rua. Mudou-se para Tarrytown, New York onde trabalhou nos hotéis Marriot como chefe de compras. Posteriormente, voltou para a cidade de New York. Sem dinheiro para ao menos alugar uma vaga, passou a fazer parte da comunidade dos moradores de rua do pier da Christopher Street. Em 1997, mudou-se para a Transy House Collective, no Brooklyn. – uma casa no padrão que ela própria havia criado, nos tempos do S.T.A.R. Retomando a direção desta entidade, Sylvia Rivera e seu grupo pressionaram o comitê de direitos humanos no sentido de incluir transgêneros na legislação não discriminatória do Estado de New York. Sem sucesso, infelizmente. Em 2002, doente e com graves dificuldades de locomoção, Silvia continuou seu trabalho de ativista e lobista em nome dos transgêneros e travestis. Conseguiu, inclusive, se reconciliar com o Inspetor Seymour Pine. Poucas horas antes de morrer de câncer no fígado, em 19 de fevereiro de 2002, esteve reunida com líderes da comunidade LGBT, sempre pressionando a opinião pública e a classe política para que mudem a forma de enxergar e aceitar a diversidade sexual. Membro da ICM – Igreja da Comunidade Metropolitana (Metropolitan Church Community) de Nova York - onde exercia um cargo de coordenação, Sylvia, no leito de morte, fez a Pastora Pat Bumgardner prometer que a igreja criaria um lugar onde jovens da comunidade LGBT para que pudessem passar a noite, quando todas as outras possibilidades estivessem descartadas. Assim nasceu o “Sylvia’s Place” (o Lugar de Sylvia), um dormitório de emergência onde os jovens entre 16 e 23 anos encontram cama, cobertores, sanitários e banheiros, e paroquianos voluntários que servem um bom café da manhã, oferecem seus ouvidos compreensivos e uma palavra amiga de encorajamento..

voluntarios lugar de Sylvias
(Voluntários da Igreja da Comunidade Metropolitana de NY no “Sylvia’s Place” )
Referências:
Duberman, Martin. Stonewall. New York: Plume, 1994.
Gan, Jessi. “Still at the Back of the Bus: Sylvia Rivera’s Struggle,” Centro Journal no. 1 (2007): 124-139.
Glisson, Susan M. The Human Condition in the Civil Rights Movement. Lanham, MD: Rowman and Littlefield, 2006.
Wilchins, Riki. “A Woman For Her Time,” The Village Voice, February 26, 2002.
Thereza Pires, escritora, jornalista e ativista: http://backupfazendoestrelas.blogs.sapo.pt/18215.html