Quem cuida da criança queer? Ou pequeno manifesto da mãe cisgênera à criança por parir!


Quem cuida da criança trans? Ou pequeno manifesto da mãe cisgênera à criança por parir!


Texto de Xênia Mello.
Muito antes do desejo de ser mãe eu já reivindicava o feminismo. Muito antes do desejo de ser mãe eu já convivia com movimentos sociais. Isso me faz pensar a maternidade invariavelmente sob um prisma social, político e questionador.
Assumo que sou uma mãe e feminista, mas tenho uma grande resistência em reivindicar o substantivo adjetivado: ‘mãe feminista’. Porque uma das principais reflexões que o feminismo me trouxe foi o conceito de privilégio, que significa vantagem concedida a alguém em detrimento de outros. Ou seja, privilégio não é direito, privilégio é exclusão. E, se eu me arrogo aos meus privilégios para maternar, como decidir em qual escola, sob quais pedagogias a criança irá estudar, devo eu reconhecê-los enquanto feminista, sob pena de criar uma maternagem essencialista, pois a maternagem é invariavelmente atravessada pelas relações privilegiadas que podemos manter.
Devo também reconhecer que não me encontro em pé de igualdade com a maioria das mães desse Brasil, e desse mundo. Sou privilegiada, em um mundo onde a responsabilidade de maternar é exclusiva da mãe, eu tenho privilégios em compartilhar o cuidado da criança com meu companheiro. Sou privilegiada classe média, com acesso a sistema de saúde complementar pago, com horário flexível de trabalho, com acesso a uma multiplicidade de escolhas relativas à lazer, cultura, educação, segurança, moradia, etc., em razão da renda familiar.
Sou privilegiada, advogada formada em uma boa faculdade de Direito, com acesso a discursos acadêmicos e uma infindável base de informações acerca da maternagem, sob um prisma psicanalítico, médico, sociológico, histórico, filosófico, etc. Nesse mar de privilégios, eu posso realizar várias escolhas não acessíveis às outras mães para maternar. Daí é que vem a minha resistência ao substantivo adjetivado ‘mãe feminista’, porque acredito que não há como colocar sob um mesmo termo uma complexidade de realidade distintas, uma mãe que mora na periferia pode ser mãe e feminista, mas dificilmente poderá garantir os mesmos privilégios que eu a uma criança. E, muitas vezes, garantias não opressivas só conseguem ser colocadas infelizmente por pais e mães privilegiados.
Essa garantia de privilégios que eu posso dar a uma criança não pode ser considerada como feminismo, sem considerar o lugar social que ocupo, já que ela não está disponível à todas as mães. Eu posso garantir uma variedade de oportunidades a uma criança, não porque sou feminista, e sim, porque sou privilegiada. Por óbvio que o feminismo faz eu perceber e vivenciar a maternidade de uma forma crítica, e essa crítica também oportuniza uma vivência diferenciada.
Imagem da campanha "Stop Trans Pathologization".
Imagem da campanha “Stop Trans Pathologization“.
Dito isso, entro no que eu de fato gostaria de falar. Nos meus devaneios acerca da maternidade, da incerteza do futuro, da incerteza em ser responsável por uma criança que ainda não conheço, e que provavelmente passarei todos os dias enquanto vivermos a conhecendo. A pergunta que me coloco, e se eu for mãe de uma criança gay? Veio em razão da inquietação da leitura de um texto da Beatriz Preciado: “Quem defende a criança queer?”, bem como de toda a vivência que tenho como militante, pesquisadora, advogada em contribuição ao Movimento de Pessoas Trans*.
De antemão, reconheço a minha falência em não ter encontrado uma forma que não a nomeasse previamente, não inaugurasse um discurso que categoriza os gêneros. Eu te nomeei, se é violento, me perdoe por não ter conseguido agir de outra forma, acredito que possamos construir um caminho de liberdade e respeito, mas assumo ainda não saber como construir esse repertório, ainda que a sociedade possa dizer o contrário. Reconhecido isso, coloco: e se a criança que eu parir negar, questionar, colocar em crise, reivindicar outras formas e se opor a toda nomeação que eu já lhe dei, e todo repertório por mim escolhido na sua fase inicial de vida? Como vou me colocar em ser mãe de uma criança trans?
Não gosto e refuto a resposta simplista de que irei assegurar a essa pessoa em formação o direito de dispor do corpo (modificá-lo) e de mudar o nome. Não gosto dessa resposta porque ela subentende privilégio. Não gosto dessa resposta porque ela permite espaço para um discurso de passabilidade, de assunção de uma norma cisgênera. Não basta assegurar a disposição do corpo e a mudança de nome para ter uma posição transfeminista enquanto mãe cisgênera, porque esses direitos, não são de fato direitos, são privilégios na medida em que não estão assegurados à toda população trans*.
Mas eu, uma mãe classe média, posso assegurar um bom tratamento hormonal, posso assegurar condições seguras com tecnologia e pesquisas recentes para intervenções cirúrgicas. Posso assegurar uma ação de mudança de nome com boa qualificação técnica jurídica. Eu posso assegurar privilégios, porque sou privilegiada, isso não me torna mãe transfeminista.
Ao pensar na questão de quem defende a criança trans temos uma complexa crítica ao sistema heterocapitalista e cisnormativo atual. E me parece, eu posso estar bem enganada — porque falo de um lugar privilegiado cisgênero — que a resposta está em algo a ser construído, a resposta está na resistência, na subversão, ela não é exata, não está numa receita pronta. Dessa forma, considero um pequeno manifesto, da Mãe Cisgênera à criança por parir:
Eu quero que você aprenda a resistir, ainda que a gente lute por espaços seguros, há nisso uma utopia. Se o mundo não possibilita segurança, resista, na certeza de que estarei contigo. Use seu corpo, a história da humanidade é uma história do uso dos corpos, como arma, como ferramenta, como potência de subversão e resistência.
Celebre seu corpo, não somos uma natureza de padrão, nos estabelecemos nas variações, nas mutações, nas diferenças, a beleza está na pluralidade! Vou me colocar para assegurar o direito de você autodeterminar o seu gênero e sua sexualidade. Sim, sem medo, sem culpa, na certeza de que a sua liberdade é o que importa, não negarei sua sexualidade, ela existe desde o momento em que você sair daqui de mim.
Eu não quero que você sobreviva às minhas imposições, você tem o direito de questionar todas elas, e se em algum momento uma escolha minha te impor, violentar, subjugar, saiba que nunca hesitarei em me desculpar, em reconhecer qualquer privilégio, em aprender. Eu irei te desapontar em alguns momentos, eu tenho privilégios, eu me comprometo a reconhecê-los, que o meu erro seja uma oportunidade para o crescimento, e não o reforço de uma violência.
Imagem via tumblr 'Bialogue: Bisexual + Queer Politics'. Tradução via blog 'Minoria é a Mãe'.
Imagem via tumblr ‘Bialogue: Bisexual + Queer Politics’. Tradução via blog ‘Minoria é a Mãe’.
Eu quero mesmo é compartilhar a vida com você! Nós vamos lutar para que você tenha uma infância segura, e que regras violentas não encontrarão espaço em nossa casa. Nós vamos construir um lar onde o desejo de ser livre seja nossa fortaleza! Sim, se lá fora pode não haver segurança, saiba que todo meu cuidado, meu afeto, minha energia será voltada para que tenhamos em casa um espaço seguro, de pluralidade cuja a única regra seja a não violência.
Eu quero que você seja uma criança que se rebela contra imposições e seja um adulto que não imponha, mas respeite. Seja você uma criança do seu próprio governo. A sua liberdade e autonomia me farão amá-la e me felicitarão.
Eu quero celebrá-la, respeitá-la. Tenha a garantia de que nunca será objeto do meu desprezo e vergonha. Se os outros zombarem de nós, faremos da zombaria combustível revolucionário, lutaremos juntas toda vez que você tiver um direito violado. O horror, a violência, a zombaria não passarão, denunciaremos, faremos aliados, com você vamos ocupar as ruas e a cidade! A sua diferença não será motivo de culpa ou rejeição, e sim, instrumento de reflexão para que eu aprenda a acolhê-la respeitá-la e amá-la.
Eu tenho um medo, e preciso aprender a lidar com ele, a enfrentá-lo. Tenho medo do que te espera aqui fora, vivemos num mundo de violência e considerando as estatísticas ainda que eu seja sua mãe, o fato de ser uma mãe cisgênera me coloca numa posição de expectativa de vida muito maior que a sua, minha linda criança trans. Meu medo é que você não consiga fugir às estatísticas e eu tenha que enterrá-la. Para mim a grande questão de ser mãe de uma criança trans é que pensar no seu enterro é uma probabilidade possível e real. Apesar do meu medo, esteja certa que não medirei esforço para enfrentá-lo, e saiba que independente do tempo que a vida tem, ela é celebração.
Saiba que eu escolho a maternagem da resistência e da luta. Enquanto nós vivermos, minha linda criança trans, vou te ler muito Galeano. Enquanto nós vivermos, cantarei desafinadamente para você, e faremos de nossos corpos uma festa!!!